ELEIÇÃO ÀS CEGAS – por Monica De Bolle
“Eles falam sobre coisas das quais não fazem a menor ideia. É apenas por causa da estupidez que conseguem ter tanta certeza de si mesmos.”Franz Kafka, O Processo
Escrevi um artigo para publicação no site do think-tank onde trabalho (o PIIE) sobre as eleições brasileiras. Ou melhor, sobre a quase-ausência de propostas econômicas—ou mesmo de propostas para qualquer área—nas campanhas dos principais candidatos. O artigo está em inglês e não merece tradução, pois foi escrito para uma audiência com pouca familiaridade com as turbulências e as idiossincrasias que caracterizam o momento atual. Encerrei o artigo com a seguinte frase: “The population will learn what’s ahead for the economy only after the vote, which is the reverse of what an election is for.” ( “A população conhecerá os rumos da economia apenas depois do voto, o que é o oposto do propósito de uma eleição.”)
A frase abriu uma torrente de reflexões não só sobre o Brasil, mas também a respeito do mundo que estamos destruindo com a finalidade de reconstruí-lo sobre outros fundamentos. A síntese dessas reflexões pode ser descrita como a marcha inexorável rumo à entropia. Trata-se da subversão do conceito (schumpeteriano) de destruição criativa, a destruição destrutiva embalada pela criação destrutiva, hoje representada pela ascensão das máquinas desinteligentes.
Antes de abordar o problema das máquinas desinteligentes, volto à frase que mencionei. Uma eleição que nega ou ignora o seu propósito, isto é, o de dar clareza sobre as opções do eleitor, enfraquece aquilo que as próprias eleições representam: o processo democrático. Entendo por “processo democrático” o confronto de ideias e propostas regido pelas instituições que garantem a participação de todos os que desejam se manifestar sobre temas que afetam tanto a vida privada de cada um quanto a vida em sociedade. Nessas eleições, o processo democrático foi inteiramente esvaziado, deixando os eleitores às cegas, inclusive aqueles que defendem um ou outro lado. Nada de bom poderá sair disso, tendo em vista que a subversão do propósito da eleição levará, inevitavelmente, ao descrédito do próprio processo eleitoral. As eleições de 2026, portanto, marcarão para nós o momento em que a derrocada da democracia à qual assistimos há anos sofrerá uma aceleração inequívoca. Nada vejo que possa alterar essa realidade.
Nesse aspecto, a eleição presidencial de 2026 é muito diferente das de 2018 e 2022. Em 2018, o país buscava alternativas a um modelo que parecia esgotado após os escândalos que antecederam à Lava-Jato e o desgaste institucional provocado pela própria Lava-Jato. Do esgotamento e do desgaste, surgiu a candidatura de Jair Bolsonaro, membro longevo do antigo “baixo-clero” do Congresso, que conseguiu capturar a indignação do eleitorado em meio à implosão de partidos tradicionais, como o PMDB e o PSDB. O catastrófico governo de Jair permitiu alguma suavização do repúdio de 2018, abrindo espaço para o surgimento de um “ânimo democrático” ou de alguma esperança quanto à possibilidade de renovação da democracia brasileira. Em 2022, foi esse sentimento que guiou a decisão de todos os eleitores que rejeitaram a continuidade do bolsonarismo, seja votando em outros candidatos, como Simone Tebet ou o inconstante Ciro Gomes, seja apoiando Lula.
Embora o desalento de 2026 tenha raízes tanto no desastroso governo de Jair, quanto no desencanto do terceiro mandato de Lula, é razoável dizer que ele nasceu há 13 anos, nas manifestações que tomaram conta do país em 2013. Em um primoroso artigo para a Ilustríssima, a antropóloga Rosana-Pinheiro Machado articulou e descreveu esse desalento com uma profundidade que hoje se tornou rara. Em uma análise que remete às reflexões de Albert O. Hirschman sobre a América Latina nos anos 70, Rosana discorre sobre a ampliação aspiracional de segmentos da sociedade brasileira beneficiados pela imensa mobilidade e ascensão social dos anos 2000. Argumenta a autora que é na ampliação aspiracional que não encontra amparo nas condições econômicas subjacentes, marcadas por empregos precários e uma sensação de falência do Estado na provisão de serviços básicos, que estão as raízes do atual desencanto.
A tese dialoga com as obras tanto do economista Hirschman quanto da filósofa contemporânea Hannah Arendt, ambos preocupados com aspectos semelhantes da condição humana em esferas distintas. No caso de Hirschman, a visão de Rosana complementa o artigo de 1973 no qual ele e seu coautor, Michael Rothschild, apresentam o famoso “efeito túnel”, uma alegoria do que acontece com sociedades em plena transformação socioeconômica. O “efeito túnel” destrincha, por meio da metáfora de um engarrafamento em um túnel, a dinâmica dos anseios e ressentimentos que movem as sociedades em diferentes estágios de desenvolvimento. Em particular, Hirschman e Rothschild delineiam como sonhos e esperanças se transformam em desatino e ressentimento quando segmentos da sociedade veem suas perspectivas estagnarem, sobretudo quando se comparam ao que ocorre com outros grupos populacionais.
Em outra vida, quando tinha canal de YouTube e escrevia regularmente para alguns veículos brasileiros, usei a metáfora do túnel para ilustrar os problemas que percebia no Brasil, sobretudo em 2013/14 e logo depois da pandemia, em 2021/22. Parecia claro que havia uma parcela da população que, após a vertiginosa ascensão socioeconômica de 2002-2010, se desencantava com suas perspectivas futuras. É esse segmento que Rosana estuda e descreve no artigo do último domingo, ilustrando como a ampliação aspiracional dessas pessoas não condiz com a realidade que enfrentam. Tal realidade tornou-se ainda mais inóspita com a precarização do trabalho decorrente da economia digital. Todos anseiam por ser empresários, donos do próprio destino, livres do modelo opressor do mercado de trabalho do século passado. Contudo, o que conseguem alcançar os mantém escravizados, ainda que na condição de “empresários”. São os entregadores digitais, os motoristas de Uber, o exército de MEIs que trabalham por aplicativos, cujas rendas continuam insuficientes e cujas rotinas permanecem sobrecarregadas, enquanto a liberdade almejada se esvai. A esses, em breve, se somarão os deslocados de um mercado de trabalho que se automatiza exponencialmente com o advento das IAs.
De concreto, Flávio Bolsonaro nada tem a oferecer a essas pessoas. No entanto, o enaltecimento de um libertarianismo tosco que essa candidatura enverga, tal qual faz Javier Milei na Argentina, é bem-recebido por aqueles que sonham com a liberdade, ainda que mal articulada. Por outro lado, Lula representa, inclusive pela idade e pelo próprio histórico de vida, uma ideia de mercado de trabalho e de aspiração individual que está irremediavelmente obsoleta e presa ao passado. O vácuo de propostas, portanto, é resultado direto da incompetência e do absoluto despreparo de um, e do legado e imagem do outro. Não se trata aqui de traçar equivalências entre Lula e Flávio. Afinal, apenas um desses candidatos pertence ao clã que tentou dar um golpe no país há menos de quatro anos. Mas é preciso reconhecer que a falência dessa eleição decorre de um esgarçamento político de tal ordem que o debate se reduziu ao que há de pior no ser humano. As políticas públicas que se danem, e, com elas, qualquer perspectiva de fortalecimento institucional.
Volto às máquinas desinteligentes e à epígrafe desse artigo. Ando relendo Kafka por razões óbvias, pois ninguém conseguiu representar o desespero provocado pela opressão burocrática com tanta habilidade quanto ele. Na obra de Kafka, os opressores são os burocratas humanos integrantes de sistemas autoritários desmiolados e violentos em igual medida. No mundo atual, os opressores são os burocratas digitais—as IAs que agora tudo contaminam—que chegaram até nós pelas mãos dos oligarcas da indústria de tecnologia, amparados e resguardados por governos com tendências autoritárias. É fácil a rendição à promessa de produtividade e eficiência que ensejam as máquinas desinteligentes. É mais fácil ainda que essa rendição resulte na perda de faculdades cognitivas ou no desmiolamento generalizado. Os indícios já são visíveis.
A ascensão das máquinas desinteligentes e as perturbações que já provocam tendem a intensificar o descolamento entre os desejos e sonhos da população e a realidade material precária que a cerca. Trata-se, paradoxalmente, de um motor potente para ampliar os engarrafamentos Hirschmanianos, aumentando o ressentimento, a tensão, a violência e a baixaria que hoje caracterizam os processos políticos mundo afora e Brasil adentro. Para piorar essa situação desnecessariamente estúpida, as máquinas desinteligentes bestializam e embrutecem ainda mais ao remover os incentivos para que as pessoas leiam reflexões mais longas e nuançadas e se esforcem para escrevê-las a partir de sua própria inteligência orgânica.
A estupidez enraiza certezas em um mundo de incertezas. Morremos mais pelas nossas certezas do que pelas incertezas que tanto nos amedrontam. Repletos de certezas questionáveis e de um desconhecimento incontestável, iremos às urnas no próximo domingo.
Monica De Bolle – 30 de setembro 2026
