ELEIÇÃO ÀS CEGAS – por Monica De Bolle

“Eles falam sobre coisas das quais não fazem a menor ideia. É apenas por causa da estupidez que conseguem ter tanta certeza de si mesmos.”Franz Kafka, O Processo

Escrevi um artigo para publicação no site do think-tank onde trabalho (o PIIE) sobre as eleições brasileiras. Ou melhor, sobre a quase-ausência de propostas econômicas—ou mesmo de propostas para qualquer área—nas campanhas dos principais candidatos. O artigo está em inglês e não merece tradução, pois foi escrito para uma audiência com pouca familiaridade com as turbulências e as idiossincrasias que caracterizam o momento atual. Encerrei o artigo com a seguinte frase: “The population will learn what’s ahead for the economy only after the vote, which is the reverse of what an election is for.” ( “A população conhecerá os rumos da economia apenas depois do voto, o que é o oposto do propósito de uma eleição.”)

A frase abriu uma torrente de reflexões não só sobre o Brasil, mas também a respeito do mundo que estamos destruindo com a finalidade de reconstruí-lo sobre outros fundamentos. A síntese dessas reflexões pode ser descrita como a marcha inexorável rumo à entropia. Trata-se da subversão do conceito (schumpeteriano) de destruição criativa, a destruição destrutiva embalada pela criação destrutiva, hoje representada pela ascensão das máquinas desinteligentes.

Antes de abordar o problema das máquinas desinteligentes, volto à frase que mencionei. Uma eleição que nega ou ignora o seu propósito, isto é, o de dar clareza sobre as opções do eleitor, enfraquece aquilo que as próprias eleições representam: o processo democrático. Entendo por “processo democrático” o confronto de ideias e propostas regido pelas instituições que garantem a participação de todos os que desejam se manifestar sobre temas que afetam tanto a vida privada de cada um quanto a vida em sociedade. Nessas eleições, o processo democrático foi inteiramente esvaziado, deixando os eleitores às cegas, inclusive aqueles que defendem um ou outro lado. Nada de bom poderá sair disso, tendo em vista que a subversão do propósito da eleição levará, inevitavelmente, ao descrédito do próprio processo eleitoral. As eleições de 2026, portanto, marcarão para nós o momento em que a derrocada da democracia à qual assistimos há anos sofrerá uma aceleração inequívoca. Nada vejo que possa alterar essa realidade.

Nesse aspecto, a eleição presidencial de 2026 é muito diferente das de 2018 e 2022. Em 2018, o país buscava alternativas a um modelo que parecia esgotado após os escândalos que antecederam à Lava-Jato e o desgaste institucional provocado pela própria Lava-Jato. Do esgotamento e do desgaste, surgiu a candidatura de Jair Bolsonaro, membro longevo do antigo “baixo-clero” do Congresso, que conseguiu capturar a indignação do eleitorado em meio à implosão de partidos tradicionais, como o PMDB e o PSDB. O catastrófico governo de Jair permitiu alguma suavização do repúdio de 2018, abrindo espaço para o surgimento de um “ânimo democrático” ou de alguma esperança quanto à possibilidade de renovação da democracia brasileira. Em 2022, foi esse sentimento que guiou a decisão de todos os eleitores que rejeitaram a continuidade do bolsonarismo, seja votando em outros candidatos, como Simone Tebet ou o inconstante Ciro Gomes, seja apoiando Lula.

Embora o desalento de 2026 tenha raízes tanto no desastroso governo de Jair, quanto no desencanto do terceiro mandato de Lula, é razoável dizer que ele nasceu há 13 anos, nas manifestações que tomaram conta do país em 2013. Em um primoroso artigo para a Ilustríssima, a antropóloga Rosana-Pinheiro Machado articulou e descreveu esse desalento com uma profundidade que hoje se tornou rara. Em uma análise que remete às reflexões de Albert O. Hirschman sobre a América Latina nos anos 70, Rosana discorre sobre a ampliação aspiracional de segmentos da sociedade brasileira beneficiados pela imensa mobilidade e ascensão social dos anos 2000. Argumenta a autora que é na ampliação aspiracional que não encontra amparo nas condições econômicas subjacentes, marcadas por empregos precários e uma sensação de falência do Estado na provisão de serviços básicos, que estão as raízes do atual desencanto.

A tese dialoga com as obras tanto do economista Hirschman quanto da filósofa contemporânea Hannah Arendt, ambos preocupados com aspectos semelhantes da condição humana em esferas distintas. No caso de Hirschman, a visão de Rosana complementa o artigo de 1973 no qual ele e seu coautor, Michael Rothschild, apresentam o famoso “efeito túnel”, uma alegoria do que acontece com sociedades em plena transformação socioeconômica. O “efeito túnel” destrincha, por meio da metáfora de um engarrafamento em um túnel, a dinâmica dos anseios e ressentimentos que movem as sociedades em diferentes estágios de desenvolvimento. Em particular, Hirschman e Rothschild delineiam como sonhos e esperanças se transformam em desatino e ressentimento quando segmentos da sociedade veem suas perspectivas estagnarem, sobretudo quando se comparam ao que ocorre com outros grupos populacionais.

Em outra vida, quando tinha canal de YouTube e escrevia regularmente para alguns veículos brasileiros, usei a metáfora do túnel para ilustrar os problemas que percebia no Brasil, sobretudo em 2013/14 e logo depois da pandemia, em 2021/22. Parecia claro que havia uma parcela da população que, após a vertiginosa ascensão socioeconômica de 2002-2010, se desencantava com suas perspectivas futuras. É esse segmento que Rosana estuda e descreve no artigo do último domingo, ilustrando como a ampliação aspiracional dessas pessoas não condiz com a realidade que enfrentam. Tal realidade tornou-se ainda mais inóspita com a precarização do trabalho decorrente da economia digital. Todos anseiam por ser empresários, donos do próprio destino, livres do modelo opressor do mercado de trabalho do século passado. Contudo, o que conseguem alcançar os mantém escravizados, ainda que na condição de “empresários”. São os entregadores digitais, os motoristas de Uber, o exército de MEIs que trabalham por aplicativos, cujas rendas continuam insuficientes e cujas rotinas permanecem sobrecarregadas, enquanto a liberdade almejada se esvai. A esses, em breve, se somarão os deslocados de um mercado de trabalho que se automatiza exponencialmente com o advento das IAs.

De concreto, Flávio Bolsonaro nada tem a oferecer a essas pessoas. No entanto, o enaltecimento de um libertarianismo tosco que essa candidatura enverga, tal qual faz Javier Milei na Argentina, é bem-recebido por aqueles que sonham com a liberdade, ainda que mal articulada. Por outro lado, Lula representa, inclusive pela idade e pelo próprio histórico de vida, uma ideia de mercado de trabalho e de aspiração individual que está irremediavelmente obsoleta e presa ao passado. O vácuo de propostas, portanto, é resultado direto da incompetência e do absoluto despreparo de um, e do legado e imagem do outro. Não se trata aqui de traçar equivalências entre Lula e Flávio. Afinal, apenas um desses candidatos pertence ao clã que tentou dar um golpe no país há menos de quatro anos. Mas é preciso reconhecer que a falência dessa eleição decorre de um esgarçamento político de tal ordem que o debate se reduziu ao que há de pior no ser humano. As políticas públicas que se danem, e, com elas, qualquer perspectiva de fortalecimento institucional.

Volto às máquinas desinteligentes e à epígrafe desse artigo. Ando relendo Kafka por razões óbvias, pois ninguém conseguiu representar o desespero provocado pela opressão burocrática com tanta habilidade quanto ele. Na obra de Kafka, os opressores são os burocratas humanos integrantes de sistemas autoritários desmiolados e violentos em igual medida. No mundo atual, os opressores são os burocratas digitais—as IAs que agora tudo contaminam—que chegaram até nós pelas mãos dos oligarcas da indústria de tecnologia, amparados e resguardados por governos com tendências autoritárias. É fácil a rendição à promessa de produtividade e eficiência que ensejam as máquinas desinteligentes. É mais fácil ainda que essa rendição resulte na perda de faculdades cognitivas ou no desmiolamento generalizado. Os indícios já são visíveis.

A ascensão das máquinas desinteligentes e as perturbações que já provocam tendem a intensificar o descolamento entre os desejos e sonhos da população e a realidade material precária que a cerca. Trata-se, paradoxalmente, de um motor potente para ampliar os engarrafamentos Hirschmanianos, aumentando o ressentimento, a tensão, a violência e a baixaria que hoje caracterizam os processos políticos mundo afora e Brasil adentro. Para piorar essa situação desnecessariamente estúpida, as máquinas desinteligentes bestializam e embrutecem ainda mais ao remover os incentivos para que as pessoas leiam reflexões mais longas e nuançadas e se esforcem para escrevê-las a partir de sua própria inteligência orgânica.

A estupidez enraiza certezas em um mundo de incertezas. Morremos mais pelas nossas certezas do que pelas incertezas que tanto nos amedrontam. Repletos de certezas questionáveis e de um desconhecimento incontestável, iremos às urnas no próximo domingo.

Monica De Bolle – 30 de setembro 2026


MEDO E DELÍRIO NA ONU ( sobre os discursos de Lula e Trump na ONU ) por Monica De Bolle

Ontem nós assistimos a um contraste pra lá de representativo dos tempos atuais, a apresentação mais crua do zeitgeist que nos assombra. A eloquência se contrapôs à truculência nos discursos de dois octogenários no palco da Assembleia Geral da ONU. Sim, o discurso de Lula foi eloquente independentemente de preferências políticas ou vieses ideológicos. Do mesmo modo, o de Trump foi de uma truculência estarrecedora e de tal envergadura que não há adjetivos adequados para caracterizá-la. Um defendeu as reformas institucionais necessárias para sustentar o multilateralismo que a maior parte do mundo ainda quer, enquanto o outro tratou de cuspir ódio em todas as direções. Sob o peso de eleições existenciais nos próximos dias e semanas, ambos estavam em campanha. Só um deles demonstrou sobriedade à altura dos desafios do mundo e do país que representa, ainda que pouco possa fazer (ou mesmo tenha feito) para alterar rumos.

Na véspera dos discursos, havia escrito sobre o artigo assinado por Mark Carney, Lula, William Ruto, presidente do Quênia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, publicado no jornal britânico Financial Times. O artigo é um clamor em defesa do multilateralismo e da cooperação global, e retoma o que Carney delineou em Davos sobre os desafios das potências médias num mundo em que a geopolítica está em franca transformação. Entendamos por potência média todo país que não se chame China ou Estados Unidos da América.

O texto é um apelo para que outros países se juntem a Canadá, Brasil, Quênia e União Europeia, e os signatários se batizaram de Partners for Multilateralism. Não se trata de um novo BRICS nem de uma nova instituição. Trata-se, por enquanto, de um agrupamento, e é difícil dizer para onde vai a iniciativa. A publicação, logo antes da abertura da Assembleia Geral da ONU (UNGA), teve por objetivo pautar a defesa do multilateralismo e, por conseguinte, da própria ONU. Afinal, a ONU é uma das mais importantes instituições do sistema multilateral e está sob ataque incessante do governo trumpista e de seus fantoches mundo afora—vide o palavrório de Javier Milei proferido hoje.

O discurso de Lula deu seguimento aos argumentos do artigo do FT. Falou sobre a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU, bandeira brasileira antiga que hoje faz mais sentido do que no passado, e sobre a regulação da indústria de inteligência artificial, tema relevante para todo mundo e, sobretudo, para os países que não controlam essas tecnologias. Falou também da emergência climática, dos conflitos e das guerras, e do fato de estarmos, nos últimos vinte meses, numa nova era de conflitos globais, com impactos na economia mundial. Falou sobre a ingerência dos Estados Unidos na América Latina sem nomear o governo dos EUA, salientou a pilhagem do petróleo venezuelano, aludindo ao que pode acontecer com os recursos naturais brasileiros—minerais críticos, terras raras—caso o país não tenha lideranças capazes de resistir à sanha de Trump. Rússia e Ucrânia, bem como Israel e Gaza, foram abordados de forma equilibrada, sem torcida, negacionismo ou exagero. Deixou claro que o mundo só poderá avançar no enfrentamento desses dilemas pela via da cooperação, não pelo caminho da força bruta.

As referências ao crime organizado foram bem colocadas no mesmo dia em que governos latino-americanos que se submeteram às vontades de Trump se uniram em apoio à hipócrita iniciativa trumpista conhecida como “escudo das Américas”. Como já mencionei (e escrevi) ao longo do ano, a designação norte-americana do PCC e do CV como organizações terroristas, combinada com as leis do país que regem as sanções, abre caminho para a interferência no PIX. Não é nada difícil para os EUA de Trump sancionarem grandes instituições financeiras do Brasil por uma suspeita, real ou fictícia, de envolvimento com esses grupos. Tais medidas teriam impacto indireto no funcionamento do PIX, caso afetem instituições críticas para as operações do sistema de pagamentos brasileiro. O PIX está em risco, sim, e é correto dizer isso num fórum global.

Assisti ao discurso, tirei minhas conclusões e fui aos jornais brasileiros para ver o que se dizia. Vi colunas afirmando que o discurso começou bem, falando do mundo, mas depois se apequenou, pois terminou com foco no contexto doméstico e resvalou em discurso de campanha. Não concordo. A interpretação de que Lula estaria resignado, “jogando a toalha”, tampouco encontra respaldo no que assisti. Quem me pareceu “jogar a toalha” em claro destempero foi Trump. A truculência com que se manifestou na ONU, ao dizer que aniquilaria o Irã e ao deixar claro o desejo de tratar a América Latina como colônia, revela o desespero de um líder acuado por suas próprias mãos. Sim, acredito que Trump fará de tudo para desqualificar as eleições de meio de mandato caso seu partido seja derrotado, como parece. Isso não muda o fato de que a derrota apavora o atual presidente dos EUA.

Sei que o país está dividido e que muita gente não votará em Lula ou é contra o PT. Eu mesma não tenho grande simpatia pelo PT e preferia, sem sombra de dúvida, que estas eleições tivessem outros candidatos. O grande desânimo destas eleições, em que sequer discutimos planos de governo, reside na falência da política brasileira em apresentar candidatos que tragam algum frescor democrático. Nunca é demais lembrar que “frescor autoritário” é oxímoro.

Considero a candidatura bolsonarista indefensável por muitos motivos, mas aqui deixarei registrado apenas um deles. A família Bolsonaro já deu amplas demonstrações de suas preferências quanto ao alinhamento externo do Brasil. Mesmo que, no papel, o filho de Jair se declare favorável a acordos com países diversos, suas atitudes e as de seus familiares revelam algo muito distinto. É a primeira vez que vejo, em uma eleição brasileira, um candidato que não só não defende os interesses do país que almeja representar, mas também prioriza abertamente os interesses de uma nação estrangeira, no caso, os EUA de Trump. Trata-se de uma inconsistência que não consigo compreender. Como é que aceitamos passivamente os bonés MAGA envergados por aqueles que dizem querer governar o Brasil? Como é que não estamos aturdidos com o risco de elegermos uma marionete—chamar de testa de ferro seria elogio—a serviço do homem que discursou depois de Lula?

Leio nos jornais análises que afirmam que há a possibilidade de as eleições presidenciais se encerrarem no primeiro turno com a vitória do filho de Jair. Torço para que estejam erradas, mas esse não é o ponto. Como pode? Afora o repúdio ao Lula e ao PT, o que leva pessoas a acreditar que o filho, ainda mais despreparado do que o pai, fará um “bom” governo, sobretudo se estiver hipnotizado pela gravata vermelha do ocupante da Casa Branca?

Passamos as últimas semanas imersos na crise do STF, usando-a, em parte, como forma de escapismo. Mas, francamente, o que é pior do que ter um emissário de Trump no Palácio do Planalto?

Monica De Bolle, 23 de setembro de 2026


Discurso de Lula na ONU – “Discurso do Presidente Lula na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas

Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh.

Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.

Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações Unidas.

Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências.

Senhor Presidente,

Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia.

Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas.

A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.

Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez.

A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.

Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais.

Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir.

Não desconheço as realidades do poder.

Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo.

Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade.

Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade.

Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de estado. É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome.

Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas.

Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação mais precisa do mapa-múndi.

Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade.

Somos chamados a optar entre:

multilateralismo ou unilateralismo;

democracia ou extremismo;

soberania ou subordinação.

Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista.

Yasser Arafat e Yitzahk Rabin foram estadistas. Desafiaram o passado para projetar um futuro de paz.

Foram derrotados pelo ódio.

Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas.

A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança.

Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio.

O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.

A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos, em um drama humanitário que continua a ceifar vidas.

Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha.

A diplomacia é a única opção.

Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo.

Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.

A democracia está novamente em xeque.

Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos.

O povo venezuelano merece definir o próprio destino.

A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições.

A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional.

Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.

Senhor Presidente,

O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado.

Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades.

Trabalhadores são roubados.

Mães perdem seus filhos.

Policiais não voltam para suas casas.

As pessoas estão cansadas da violência.

Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.

Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.

Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está mudando.

Criamos em Manaus o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança pública dos nove países amazônicos.

Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil.

Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime.

A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.

Crime organizado e corrupção andam juntos.

O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei.

Senhoras e senhores,

Os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos.

A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos.

Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.

Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da COVID-19.

Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna a todos mais vulneráveis.

Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional.

Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, foros que reúnem os maiores emissores de carbono.

É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo.

A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só.

As geleiras do Himalaia estão derretendo. Um Super El Niño pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes partes do globo.

Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis.

O Brasil vem demonstrando que é possível aliar crescimento econômico com redução de emissões.

Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos pesquisando o potencial de novas reservas, como as da Margem Equatorial.

Não renunciaremos à agenda ambiental. Levaremos adiante o Mapa do Caminho para a descarbonização da economia brasileira.

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, mostra que é possível mudar antigos paradigmas.

A floresta vale mais em pé do que destruída.

Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade na Amazônia e atingiu o menor nível em 11 anos.

O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética.

Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas.

O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.

Senhor presidente,

Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades.

Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial.

Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.

Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial.

Como adverte o Papa Leão 14, “as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade”.

Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos.

A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro.

Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares.

Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.

Vamos assegurar a justa remuneração de artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual.

Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.

Senhoras e senhores,

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são alvo de ataques de forças reacionárias, que desejam naturalizar injustiças.

A desigualdade e o subdesenvolvimento resultam de escolhas políticas.

É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte.

É necessário cortar privilégios e investir em educação e saúde gratuitas e de qualidade.

Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças. Mas mudar não é retroceder.

Não é subtrair direitos.

Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão feminina.

Não é recolonizar o Sul Global.

Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais conquistas.

É criar e compartilhar soluções públicas efetivas para os desafios do desenvolvimento por meio de um Estado democrático, forte, eficiente e capaz.

É apostar no espírito de solidariedade e na cooperação com a África, a Ásia e a América Latina e Caribe.

O Brasil tem pressa de se tornar uma nação desenvolvida e socialmente justa.

Adotamos um modelo econômico que se assenta na distribuição de renda, na geração de empregos e na valorização do salário.

Apostamos na melhoria da produtividade, na ampliação do crédito e na construção de uma rede robusta de proteção social.

O Brasil voltou a crescer de modo sustentado. Somos o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.

Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações.

Ainda há muito a ser feito.

O mundo do trabalho está em transformação.

Pessoas idosas querem permanecer ativas. Jovens desejam empreender.

O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família.

No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6×1 para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana.

Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres.

Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de trabalho.

Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência.

Senhor presidente,

Ao receber o Nobel da Paz, Martin Luther King afirmou que “aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas para o próximo podem reconstruir”.

A ONU nasceu sob o signo da esperança.

Ao longo de oito décadas, contribuiu com a descolonização, promoveu os direitos humanos e apoiou o desenvolvimento sustentável.

Protegeu migrantes e refugiados, condenou o racismo, o antissemitismo e a intolerância religiosa.

Essas foram conquistas de lideranças que ocuparam este pódio movidos pela indignação diante das injustiças de seu tempo.

Homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como destino, o colonialismo como direito, o apartheid como sistema legítimo.

Foi dessa capacidade de dizer “não” às desigualdades que nasceram algumas das maiores transformações que vivemos.

Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.

Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os que nos ouvem.

No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino.

Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo.

Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.

Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão.

Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.

Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha.

Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto.

Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular.

A democracia brasileira pertence aos brasileiros.

O Brasil continuará sendo um país soberano.

Ninguém…!!! Ninguém nos afastará desse caminho.

Que Deus nos abençoe a todos.

Muito obrigado.


A GUERRA COMEÇA ONDE PARECE HAVER APENAS UMA CRISE – por Reynaldo Aragon

O Supremo enfrenta algo maior do que uma crise de imagem. As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, os questionamentos que atingem Alexandre de Moraes e Paulo Gonet, a ofensiva institucional de André Mendonça, as acusações dirigidas contra o próprio Mendonça e a entrada de Edson Fachin como árbitro expuseram uma fratura rara: a estrutura encarregada de controlar o Estado passou a disputar, internamente, quem controla quem.

O erro seria reduzir esse quadro a uma sucessão de escândalos ou rivalidades pessoais. Uma crise institucional se torna estratégica quando passa a produzir vulnerabilidades que outros atores podem converter em poder. É nesse ponto que a guerra híbrida começa a operar. Ela explora conflitos reais, disputas de competência, interesses, redes de influência, processos, dinheiro, informação e perda de confiança. Quanto mais profunda a fratura interna, maior o valor que ela pode adquirir para quem tem capacidade de reorganizá-la de fora.

A estratégia aqui chamada de “oculta” não pressupõe a existência de um plano secreto comprovado, mas uma arquitetura de influência e coerção cuja força está justamente em operar por conexões, incentivos e instrumentos que raramente aparecem reunidos como parte de um mesmo sistema.

A pergunta decisiva, portanto, não é apenas quem agiu corretamente dentro do STF. É quem ganha capacidade de ação quando essas instituições entram em colisão. Quem consegue transformar documentos produzidos no Brasil em argumentos para pressão diplomática, sanção, tarifa, processo judicial ou disputa eleitoral? O problema deixa de ser apenas a crise. Passa a ser quem consegue convertê-la em alavanca sobre as decisões do Estado brasileiro.

Capturar sem controlar: como funciona a guerra híbrida por dentro

A forma mais sofisticada de influência estrangeira não depende de agentes pagos nem de ordens secretas. Ela opera sobre redes, acessos, afinidades, incentivos e proteção. O objetivo não é necessariamente controlar quem decide, mas alterar o ambiente em que a decisão é tomada.

É por isso que a captura de elites aparece entre os instrumentos estudados em estratégias de interferência. Formação de quadros, organizações estrangeiras, think tanks, fundações, redes religiosas, associações profissionais e espaços jurídicos podem funcionar como canais legítimos de relacionamento e, em determinadas condições, como vetores de influência. O problema começa quando opacidade, dependência, conflito de interesses ou expectativa de proteção passam a afetar a autonomia de quem exerce poder público.

A distinção é fundamental: relação não é influência; influência não é cooptação; cooptação não é comando. Entre esses pontos existe um continuum de acesso, legitimação, incentivo, proteção e dependência. Coordenação só pode ser afirmada quando houver evidência concreta de instruções, financiamento, mensagens ou ação sincronizada.

Um ator pode agir por convicção própria e ainda assim produzir resultados úteis a interesses externos. Se encontra fora do país redes capazes de amplificar sua posição ou elevar o custo de seus adversários, a correlação de forças interna pode mudar sem qualquer ordem direta.

A guerra híbrida não precisa produzir obediência. Basta produzir funcionalidade.

O ponto de acoplamento: por que André Mendonça importa

André Mendonça interessa à análise estratégica menos como indivíduo do que como posição dentro de uma rede. Sua trajetória combina autoridade institucional, identidade religiosa pública e circulação documentada por ambientes jurídicos conservadores com conexões internacionais.

Uma dessas conexões passa pela ANAJURE. A entidade apoiou publicamente a indicação de Mendonça ao STF, e pesquisas acadêmicas documentam sua parceria institucional com a Alliance Defending Freedom, organização jurídica religiosa sediada nos Estados Unidos e com atuação internacional. Por meio dessa parceria, foram custeadas bolsas para juristas brasileiros participarem do Blackstone Legal Fellowship nos EUA, experiência que impulsionou a criação da Academia ANAJURE. Em 2020, a programação da academia incluiu André Mendonça e Jeffery Ventrella, então diretor do Blackstone. O conjunto não prova submissão ou coordenação. Documenta, porém, um circuito transnacional de formação jurídica, relacionamento e circulação de ideias.

Há também interlocuções documentadas com organizações de atuação pró-Israel. Em 2024, Mendonça participou de uma viagem privada de magistrados custeada pela Confederação Israelita do Brasil e pela StandWithUs Brasil. O episódio mostra circulação e acesso a organizações com atuação pública e capacidade de articulação internacional.

A relevância disso cresce quando se observa a crise atual. Mendonça ocupa posição decisiva em desdobramentos do caso Master sob sua relatoria, enfrentou Moraes dentro do STF e passou ele próprio a ser questionado por procedimentos adotados na investigação. Edson Fachin determinou esclarecimentos formais de Mendonça, Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. O quadro continua juridicamente aberto.

A relevância estratégica está justamente nessa posição. Não há evidência pública de comando estrangeiro, cooptação ou coordenação envolvendo Mendonça. O que existe é algo que merece atenção por si só: um ministro situado no centro de uma fratura institucional, inserido em redes transnacionais e capaz de produzir decisões cujos efeitos ultrapassam imediatamente as fronteiras do STF.

É essa capacidade de conectar sistemas distintos, sem que seja necessário demonstrar comando entre eles, que transforma Mendonça em um possível ponto de acoplamento da crise.

A ponte: como uma disputa brasileira chega a Washington

Uma crise interna só ganha valor estratégico para uma potência estrangeira quando existe quem consiga transportá-la entre sistemas. É essa função que os intermediários cumprem. Eles transformam um fato produzido no Brasil em linguagem política utilizável no exterior e o conectam a redes capazes de pressionar o Estado brasileiro.

Eduardo Bolsonaro ocupa hoje uma posição objetiva nessa ponte. Atuando a partir dos Estados Unidos, apresentou André Mendonça como contraponto institucional a Alexandre de Moraes e confirmou que ele e seus aliados pressionaram o governo americano pela retomada das sanções Magnitsky contra Moraes. Também afirmou que oferecem sua avaliação quando são consultados por interlocutores em Washington. O dado central é simples: enquanto uma disputa ocorre dentro do STF, um ator brasileiro instalado nos EUA trabalha para conferir legitimidade a um dos polos e aumentar o custo externo do outro.

O caso Master acrescenta uma conexão material. A Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, fez repasses a pedido de Daniel Vorcaro ao Havengate Development Fund, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.O fundo foi utilizado no financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.Freixo firmou acordo de colaboração premiada com a PGR, hoje sob análise de André Mendonça no STF. A Polícia Federal investiga a destinação dos recursos enviados aos Estados Unidos, inclusive a hipótese de que parte deles tenha servido a finalidades diferentes do financiamento do filme, o que é negado pelos envolvidos. O ponto estratégico é que uma colaboração submetida à análise de Mendonça alcança uma estrutura financeira nos Estados Unidos ligada ao entorno de um dos principais articuladores da pressão americana contra Moraes.

É assim que a crise muda de escala. Informações produzidas no Brasil atravessam políticos, advogados, fundos, plataformas e redes de influência, chegam a Washington com novo enquadramento e podem retornar vinculadas a instrumentos de coerção. O intermediário é a peça que transforma conflito doméstico em capacidade externa de pressão.

A máquina: quando Washington transforma narrativa em coerção

A ponte só importa porque existe uma máquina estatal capaz de agir do outro lado. Washington já dispõe de instrumentos jurídicos, econômicos, financeiros e diplomáticos capazes de transformar disputas brasileiras em custo material.

A Seção 301 (Section 301) mostrou essa capacidade. Em junho de 2026, o USTR considerou acionáveis práticas brasileiras envolvendo comércio digital e serviços de pagamento, aplicação anticorrupção (enforcement), propriedade intelectual e outros setores. Entre os fundamentos, citou ordens de tribunais brasileiros contra plataformas americanas. Em julho, o procedimento resultou em tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. Uma controvérsia jurídica e digital atravessou a burocracia americana e reapareceu como coerção econômica.

No campo financeiro, o precedente também está documentado. A OFAC sancionou Alexandre de Moraes sob a Lei Global Magnitsky em 30 de julho de 2025 e, em setembro, incluiu sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos. As designações foram retiradas em 12 de dezembro daquele ano. O episódio demonstrou que o sistema financeiro americano pode ser acionado diretamente contra integrantes da cúpula institucional brasileira e estruturas associadas a eles.

O vetor jurídico completa a arquitetura. Rumble e Trump Media levaram aos tribunais da Flórida uma disputa originada em decisões de Moraes. Em junho de 2026, o Brasil interveio formalmente no processo alegando ser a parte real interessada e sustentando que as ordens questionadas eram atos soberanos do Estado brasileiro. A Justiça americana admitiu a intervenção.

Há ainda uma estrutura explícita de acompanhamento político. A Ordem Executiva 14323, de julho de 2025, determina que o secretário de Estado monitore a situação brasileira e, em consulta com o Tesouro, Comércio, Segurança Interna (Homeland Security), USTR e assessores de segurança nacional e política econômica da Presidência, recomende ações adicionais quando considerar necessário.

A engrenagem decisiva é esta: mudar o domínio do conflito. Direito vira comércio. Informação vira sanção. Disputa institucional vira pressão diplomática. Quando isso acontece, a crise já não pertence apenas ao país em que nasceu. Passa a operar dentro de uma relação internacional de força.

O laboratório eleitoral: medir antes de agir

A pressão externa ganha outra dimensão quando seu efeito político passa a ser medido dentro do país-alvo. Em agosto de 2026, aliados de Donald Trump encomendaram à McLaughlin & Associates uma pesquisa nacional no Brasil que avaliou, entre outros pontos, como possíveis sanções americanas contra autoridades brasileiras poderiam repercutir sobre o voto. Segundo a Folha de S.Paulo, o levantamento foi produzido para fornecer informações a interlocutores na Casa Branca e no Departamento de Estado.

A pesquisa ouviu 1.991 eleitores e perguntou diretamente se uma nova sanção financeira dos Estados Unidos contra Alexandre de Moraes alteraria sua decisão eleitoral. Para 53,3%, não alteraria; 24,7% afirmaram que ficariam mais propensos a votar em Flávio Bolsonaro e 18,2% em Lula. Isso não demonstra que o governo americano tenha encomendado a pesquisa nem que pretenda utilizar sanções para interferir na eleição. Demonstra que atores ligados ao trumpismo estão mensurando o efeito eleitoral, no Brasil, de um instrumento de coerção sob controle do Estado americano.

Esse tipo de mensuração reduz incertezas. Permite observar reações, identificar públicos sensíveis e calcular custos antes de ampliar uma pressão. Em estratégia, a sequência é conhecida: testar, medir, recalibrar. Numa eleição equilibrada, não é necessário alterar o comportamento de milhões de pessoas. Pequenas mudanças de percepção, confiança ou mobilização podem adquirir peso político desproporcional.

Por isso, o aspecto mais revelador da pesquisa não está nos percentuais. Está na pergunta formulada. Quando atores próximos à potência que dispõe da sanção começam a medir como essa sanção afeta o voto em outro país, política externa e ambiente eleitoral passam a ocupar o mesmo campo de cálculo estratégico.

O próximo movimento

A questão agora é identificar qual combinação de instrumentos pode produzir maior efeito político com menor custo para Washington.

O primeiro movimento provável é narrativo. A ofensiva contra Moraes esteve concentrada em censura e perseguição política. O caso Master permite ampliar o enquadramento para integridade institucional, conflito de interesses e abuso de poder, alcançando públicos que não aderem ao discurso bolsonarista, mas podem reagir à percepção de deterioração das instituições.

O segundo movimento tende a ser jurídico. Rumble e Trump Media já questionam decisões de Moraes nos Estados Unidos, enquanto a Advocacia-Geral da União (AGU) sustenta que elas constituem atos soberanos brasileiros. Fatos novos podem ser utilizados para tensionar essa fronteira e tentar caracterizar determinadas condutas como pessoais ou praticadas além da autoridade do cargo.

O terceiro movimento pode ser seletivo. Sanções, vistos, audiências, processos e legitimação política permitem elevar o custo de determinados atores e reduzir o de outros, alterando a correlação de forças dentro da própria crise.

Por fim, a pressão tende a ser calibrada pela reação brasileira. O sinal decisivo será observar se os mesmos fatos passam a aparecer simultaneamente no discurso político americano, em procedimentos jurídicos ou administrativos e na disputa eleitoral brasileira.

Quando isso acontecer, a possível reação de Washington já terá entrado no cálculo interno das autoridades brasileiras antes mesmo de qualquer nova medida ser executada.

Como quebrar o circuito sem blindar ninguém

A pior resposta brasileira seria confundir soberania com proteção corporativa. Se existem suspeitas contra Moraes, Mendonça, Gonet, integrantes da Polícia Federal ou qualquer outro agente público, elas precisam ser investigadas com rapidez, transparência, contraditório e independência. Um Estado que esconde suas próprias fraturas entrega ao exterior o argumento de que precisa ser tutelado.

A primeira defesa é reduzir a opacidade. Relações financeiras, conflitos de interesses, viagens custeadas por organizações privadas, contatos com entidades estrangeiras e vínculos de familiares de autoridades precisam estar submetidos a regras claras de transparência. Isso deve valer para todos os campos políticos. Soberania seletiva é apenas facção.

A segunda defesa é abandonar a obsessão exclusiva pela desinformação e mapear redes de influência, intermediários, fluxos financeiros, estruturas jurídicas e canais de transmissão. A guerra híbrida não opera apenas por conteúdo falso. Opera também por fatos verdadeiros selecionados estrategicamente, por lobby, litígios, organizações transnacionais e pela capacidade de fazer a informação chegar ao lugar onde ela pode ser convertida em poder.

A terceira defesa é antecipar a coerção. Itamaraty, AGU, órgãos econômicos e estruturas de inteligência precisam trabalhar com cenários prévios para sanções, tarifas, processos e medidas extraterritoriais. A contestação brasileira à Seção 301 na Organização Mundial do Comércio (OMC) mostra uma direção possível: deslocar a pressão unilateral para arenas jurídicas e multilaterais que aumentem o custo da ação externa.

A quarta defesa é eleitoral. Proteger a eleição não pode significar proteger governos nem criminalizar a crítica legítima. A resistência mais sólida é uma sociedade capaz de conhecer rapidamente os fatos, identificar quem tenta instrumentalizá-los e decidir sem tutela de Brasília nem de Washington.

No fundo, a defesa brasileira exige reduzir a distância entre a soberania formal e a soberania real. Quanto maior a dependência de plataformas, tribunais, sistemas financeiros, mercados e governos estrangeiros, maior o número de alavancas disponíveis para pressionar o país.

A melhor defesa contra a exploração externa de uma crise brasileira não é negar a crise. É investigá-la de forma tão legítima e soberana que nenhum outro Estado consiga reivindicar para si o direito de defini-la, julgá-la ou utilizá-la para condicionar o futuro do Brasil.

O verdadeiro alvo

É tentador reduzir tudo a personagens: Moraes contra Mendonça, Bolsonaro contra Lula, Trump contra o governo brasileiro. Essa leitura transforma uma disputa estrutural numa briga entre nomes.

O verdadeiro alvo é outro: a capacidade soberana de decisão.

Se houver crimes, abusos ou conflitos de interesses, que sejam investigados e punidos no Brasil. Mas quando fraturas internas passam a ser convertidas em proteção, punição ou incentivo por uma potência estrangeira, o problema deixa de ser apenas institucional e se torna estratégico. A questão já não é quem controla o Supremo. É quem consegue alterar seu comportamento sem precisar controlá-lo.

Na guerra híbrida, o cerco se completa quando o adversário já não precisa entrar no Estado. Basta que o próprio Estado produza, por dentro, as alavancas que serão acionadas de fora.

Reynaldo Aragon é pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT-DSI). Também coordena a Rede Conecta de Inteligência Artificial e Educação Científica e Midiática.