A noção de poder aquisitivo

Foi Adam Smith quem divulgou a noção moderna de poder aquisitivo, por oposição à idéia de que as peças monetárias de metal, de ouro ou de prata, que então circulavam ( no final do século XVIII) , tinham um valor intrínseco, o que não ocorria, evidentemente, com as cédulas de papel/moeda e com os títulos de crédito que já começavam a inundar o meio circulante da época.
Dizia ele, enfaticamente: “seria ridículo eu perder muito tempo para provar que a riqueza não consiste em dinheiro, ou em ouro e prata, mas naquilo que o dinheiro compra e é valioso apenas por poder comprar”.
Da noção de poder aquisitivo Adam Smith deduziu uma outra, que até hoje é também corriqueira, a de valor de troca que, consistiria no “ poder de compra de outros objetos que a posse (da peça monetária ) representa.”
Tais noções, tanto de poder aquisitivo como de valor de troca, estão a ponto, contudo, de ser ultrapassadas: parafraseando Adam Smith bem que poderíamos dizer que seria ridículo continuar dizendo, hoje em dia, que a moeda é válida apenas pelo que ela pode comprar.
Com efeito, o mundo concreto que a moeda ajuda atualmente a disciplinar é constituído de fatos e relações sociais muito mais complexos do que no tempo de Adam Smith, e o nosso objetivo não pode ser mais apenas o de usar o dinheiro para comprar “riquezas”. As noções smithianas de riqueza, de poder aquisitivo e de valor de troca podem ter sido muito úteis e saudáveis para que alguns países, passados cerca de dois séculos, se desenvolvessem e possam presentemente reunir-se no âmbito do chamado G-8 para refletir sobre o seu poder econômico. Para os pobres, porém, esses conceitos acabaram se transformando em instrumento de discriminação.
Explico-me melhor: assim como ocorria antigamente – situação que Adam Smith, como vimos, combatia – numa época em que as pessoas achavam que eram ricas por serem proprietárias de peças monetárias de metal que tinham valor intrínseco, essas mesmas pessoas ( ou seus descendentes ou sucessores ) consideram, hoje, que são ricas porque são proprietárias do poder aquisitivo do dinheiro que possuem emitido pelo Banco Central.
A utilização do dinheiro para fins de administrar uma saída para a pobreza de milhões de pessoas é vista, por isso, por muitos ricos, como uma ameaça de distribuição forçada das suas propriedades – isto é, da propriedade do poder aquisitivo do dinheiro que possuem.
Isso, porém, é uma falsa impressão, que precisa ser combatida. A ajuda internacional em dinheiro, o emprego da moeda para permitir que sociedades muito pobres alcancem um patamar mínimo de organização que lhes possibilite ingressar no caminho do desenvolvimento econômico destina-se essencialmente a estruturar essas sociedades, e não a lhes fornecer poder de compra retirado de alguém.
O auxílio a essas sociedade, ou a essas pessoas, não é em nada similar às ações que praticava Robin Hood, tirando a riqueza dos ricos para dá-la aos pobres. O conceito de norma monetária nos ajudará a compreender melhor as noções aqui expostas. Mas a sua exposição demandará mais tempo e mais espaço. Ela irá sendo desvendado à medida que estes textos – e a crítica que os leitores deles fizerem – forem sendo elaborados. LETÁCIO JANSEN


Não há comentário até agora

  1. money julho 28, 2006 3:43 pm

    comment – Dr. Letacio, uma pequena constatação. Existe um erro de grafia no último parágrafo. O herói/bandido inglês é Robin Hood e não Wood

  2. Letácio julho 28, 2006 3:49 pm

    Gostei da novidade, sucesso !

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