A esquizofrenia monetária

Supondo que a trégua de 48 horas suscitada pelo massacre de Qana pudesse evoluir para um cessar-fogo obtive uma relativa paz de espírito que me permitiu escrever ontem dois textos neste blog. Passadas, porém, algumas horas,a guerra recrudesceu, obedecendo à sua lógica horrorosa. A irracionalidade da situação atual, bem evidenciada pelo editorial do jornal Estado de São Paulo de hoje, demonstra a necessidade de se instituir uma ordem mundial muito mais evoluída, que deixe de ser essa ordem jurídica primitiva, similar à da antiga máfia, onde se trucidavam os parentes inocentes pelos delitos supostamente praticados por algum outro membros da família.
Mas vamos à mensagem de hoje. No seu título a palavra equizofrenia está sendo empregada metaforicamente, não sei se com bom ou mau gosto, para significar um fenômeno monetário brasileiro recente. Na década de 1980 dois autores, respectiamente J.Y.Chong, no livro “A bigamia monetária” e Maria da Conceição Tavares, na tese com que conquistou a cadeira de macroeconomia da Faculdade de Economia e Administração da URFJ, em que usava a expressão \”equizofrenia financeira\”, denunciaram a duplicidade institucional que decorria do funcionamento do open-market no Brasil, em que os indexadores criados pela ditadura militar passaram a exercer uma das funções clássicas da moeda e acabaram instituindo o regime das “duas moedas”.
A existência, de fato, dessas duas moedas – o cruzeiro, como meio manual de pagamento, e a ORTN como medida de valor – implantado em 1964, tornou, mais tarde, muito difícil a conversão para real, das obrigações monetárias antes expressas na antiga unidade monetária. Foi isso que deu origem ao subterfúgio da URV ( de que já falei numa das duas mensagens de ontem sobre a Estabilidade dos Preços ) um artifício que dificulta, até hoje, a completa reorganização de nossa ordem monetária.
Nunca houve situação similar no passado e esse fato – de que havia duas moedas – precisa ser bem compreendido e assimilado por todos nós, pois é ele o principal responsável, ainda, pelas incertezas atuais, que provocaram “ um programa de estabilização”, como diz Paulo Rabelo de Castro, que já tem 12 anos, sendo o “mais longo da história”.LETÁCIO JANSEN


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