A ideologia do pós- guerra

Em pleno curso da Segunda Guerra Mundial, no dia 15 de outubro de 1940, estreou em New York o filme “O grande ditador” de Charles Chaplin, no qual ele dá uma gozada nos líderes belicosos de então, encarnados nos personagens Hynkel e Napaloni, Não é preciso acentuar a coragem de Carlitos em ridicularizá-los, daquela forma e naquele momento, quando muitos achavam que o conflito ia ser vencido pelo Eixo.

Havia, naquele tempo, um estado de espírito que não existe mais. Os EUA eram um exemplo de entusiasmado culto pelo direito internacional, que os levara, inclusive, depois da Primeira Grande Guerra a propor a criação de uma Liga das Nações, que a eclosão da Segunda desmoralizou. Liderados por Franklin Roosevelt os americanos lutaram, na década de 1940, na Europa, na Ásia e na África com grande sacrifício, defendendo grandes ideais, e foram os vencedores da guerra.

Logo que o conflito terminou, em 1945, elevou-se na Grã-Bretanha a voz de Winston Churchill, herói da resistência inglesa, incentivando o mundo ocidental a travar contra antiga aliada, a URSS, uma guerra fria, que os americanos, afinal, também venceram. Desses fatos emergiu o que podemos denominar a “ideologia pós Segunda Guerra”, que nos embalou durante cerca de meio século.

Essa ideologia agora acabou. Não adianta esperar, com base nela, que a opinião pública mundial dê apoio a investidas belicosas da aliança anglo americana, e de países dela dependentes, como se os “aliados” continuassem a ser aquela entidade fantástica que era para a minha geração. Essas guerras cujas imagens diariamente nos amarguram ao serem transmitidas pela televisão estão sendo corretamente vistas pelas multidões como ilícitos internacionais: usar, a seu favor, os argumentos das ações preventivas, ou da legítima defesa desproporcional, não comove mais ninguém de boa fé.

Mesmo porque há uma enorme distância entre as figuras dos atuais chefes políticos dos EUA e Inglaterra e as de Churchill e de Roosevelt diante de quem estes líderes, paradoxalmente, mais se parecem com os hynkels e napalonis de Carlitos do que com defensores do direito e da democracia.

Se é verdade, porém, como dizia o nosso Cazuza, que precisamos de uma ideologia para viver em que direção deve seguir, nesta hora, o nosso olhar, e caminhar nossas esperanças ?

Ao preconizar a necessidade de criação de um Tribunal Internacional onde seriam julgados e responsabilizados pessoalmente líderes políticos que patrocinassem guerras, Hans Kelsen, na conclusão do seu livro “Direito e Paz nas relações internacionais”, editado em 1942, escreve o seguinte: “Apesar de tudo, parece que a idéia de Direito continua sendo mais forte do que qualquer outra ideologia de poder.”

Inspirado nessas palavras proponho a defesa do fortalecimento do Direito Internacional não como mera questão teórica, mas como lema: essa defesa pode significar a sobrevivência da nossa civilização ocidental. LETÁCIO JANSEN


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