R E P I Q U E

Vale a pena transcrever o comentário de Jeffrey Sachs, no livro O Fim da Pobreza, que tem a ver com a referência da delegada da ONU Christ Mbonu à corrupção na África, à qual aludi num Repique anterior. Diz ele: “O mundo exterior tem respostas engatilhadas em relação à crise prolongada na África. Tudo se resume sempre à corrupção e ao mau governo. As autoridades ocidentais, inclusive as incontáveis “missões” do FMI e do Banco Mundial aos países africanos, argumentam que o continente precisa simplesmente comportar-se melhor, permitir que as forças do mercado funcionem sem a interferência de governantes corruptos. O apresentador de televisão americana Bill O’Reilly refletiu essa visão comum quando declarou recentemente que a África ‘ é um continente corrupto; é um continente caótico. Não conseguimos entregar muitos dos programas que mandamos para lá. O dinheiro é roubado. Então, quando se tem uma situação como essa, em que os governos não se comportam com consistência, onde há corrupção por toda parte, como se pode acabar com isso ?’
Depois dessas reflexões conclui Sachs dizendo que “ a afirmação de que a corrupção é a fonte básica do problema ( africano ) não se sustenta diante da experiência prática e do exame sério.”


INTERREGNO SOBRE A CORRUPÇÃO

Comecemos por uma interpretação literal do termo: corrupção é um substantivo feminino, que entrou na língua portuguesa em 1344, proveniente do latim “corruptio” através do francês arcácio “corrupçon”, que quer dizer ato, processo ou efeito de corromper. São diversos seus significados, todos ruins: deterioração, decomposição física, orgânica de algo; putrefação, depravação de hábitos, de costumes; devassidão; ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, com oferecimento de dinheiro; suborno; emprego, por parte de grupo de pessoas de serviço público e/ou particular, de meios ilegais para, em benefício próprio, apropriar-se de informações privilegiadas.

Outros sinônimos de corrupção, no seu sentido de decadência: caducidade, caduquez, caída, caimento, consumpção, corrompimento, debilitação, debilitamento, decaimento, declinação, decremento, decrescimento, decréscimo, definhamento, degringolada, depauperamento, deperecimento/desperecimento, derrocada, descensão, descenso, descida, desmoronamento, deterioramento, empobrecimento, enfraquecimento, esbarrocamento, esbarrondamento, esboroamento, esborôo, escaimento, esfacelamento, esfacelo, esgotamento, extenuação, involução, mergulho, naufrágio, ocaso, outono, perecimento, queda, recuo, ruína, soçobramento, soçobro, sol-pôr, trambolhão

O verbo do qual se origina o vocábulo corrupção é corromper, datado de 1255, oriundo também do latim corrupere, através do francês coromper, e tem o sentido de tornar-se apodrecido ou estragado; deteriorar-se ou de perverter-se moral ou fisicamente, tornar diferente do que era originalmente; adulterar, alterar,subornar em função de interesse próprio ou de outrem.

Em termos jurídicos a corrupção é a disposição apresentada por funcionário público de agir em interesse próprio ou de outrem, não cumprindo com suas funções, prejudicando o andamento do trabalho. É, também, a prevaricação.

No caso brasileiro a corrupção atual parece-me um fenômeno de transição. Estamos saindo de uma modalidade de corrupção – a dos coronéis do interior que fazem tanto sucesso nas nossas novelas de época, que se aproveitavam, sexualmente, de suas “rolinhas” – para uma forma urbana de corrupção, em que os outros nos dão a impressão de querer desfrutar de uma vida superior ao que lhes permitem os seus próprios ganhos.

É um sintoma da passagem também de um regime mais duro para um sistema “amaciado” pelo dinheiro. Os índios não eram corruptos, quando os portugueses aqui chegaram no início do século XVI, nem conheciam o dinheiro: mas eram violentos, e viviam em lutas mortais com as tribos vizinhas. Não creio que a corrupção esteja, como às vezes se diz, “no sangue” dos brasileiros. Ela nos assola mais hoje em dia porque há um capitalismo brasileiro irrompendo ( e corrompendo ).

A corrupção é imoral e ilegal. A melhoria da educação reduzirá a corrupção e dificultará a eleição de políticos corruptos. Já do ponto de vista legal é preciso ter boas leis, como dizia Montesquieu, no trecho do seu Espírito das Leis, que vale a pena transcrever várias vezes: “ Quando um povo não conhece o uso da moeda, encontramos nele, somente injustiças decorrentes da violência; e os fracos, unindo-se, se defendem contra a violência. Em seu meio, quase só existem conluios políticos. Mas, entre um povo em que a moeda está estabelecida, estamos sujeitos às injustiças decorrentes da astúcia, e essas injustiças podem ser exercidas de mil maneiras. Torna-se então necessária a existência de boas leis civis.” LETÁCIO JANSEN