PODER LIBERATÓRIO

Na cena inicial do quarto ato do Mercador de Veneza a jovem Portia, travestida de Juiz, parece muito rigorosa no cumprimento da Lei, insistindo em que Shylock execute, in natura, a garantia prestada por Antônio pelo não pagamento da dívida por ele contraída e extraia do peito do devedor uma libra de carne, mas sem derramar um pingo sequer de sangue.
Shakespeare se abstrai, porém, de que o dinheiro oferecido por Bassânio tinha o poder jurídico de liberar Antônio da obrigação de modo que o cumprimento estrito da Lei não era manter o débito e executar a garantia e sim, com o que concordara, afinal, Shylock, extinguir compulsoriamente a dívida, e seus acréscimos, libertando o cristão.
A moeda foi instituída precisamente para isso: permitir que as questões judiciais tenham um solução menos violenta do que a morte, a prisão ou a perda da propriedade.
Portia cumpriria melhor a Lei, portanto, se determinasse ao judeu que recebesse o pagamento e, em seguida, liberasse Antônio.
A transferência de mãos do dinheiro é um poder jurídico que equivale a uma sanção, o que, aparentemente, foi ignorado pelo grande dramaturgo, em nome, provavelmente, do final mais sensacional que ele queria dar à peça.


E a bomba ?

O colunista do NYT David Brooks termina o artigo “Não mudou, mas está diferente” traduzido e publicado pelo Estadão de hoje com o seguinte intrigante trecho: “Somente hábitos democratas impedirão o inevitável embate entre tribos de se transformar numa guerra de extermínio nuclear.”
Pouco se tem falado, na mídia, sobre o risco que a Humanidade corre, a cada hora, de ser exterminada por um conflito nuclear. Mas vocês já pararam para pensar de onde o pres. Bush retira forças para insistir nos erros crassos que a sua catastrófica administração tem praticado ? Será o poder atômico que o faz que crer que ele tem a grande “carta na manga” quando tudo parecer perdido ?
Os EUA, felizmente, têm “hábitos democratas” embora a administração Bush não os cultive. Esses hábitos, segundo espero, hão de fornecer aos americanos os meios políticos para tirar do poder o pequeno grupo de pilantras que hoje têm acesso hoje ao botão vermelho da guerra nuclear.
Por mais que os democratas sejam ambíguos em relação às guerras do Iraque e do Afeganistão, e hesitantes sobre a crise do Irã, a sua vitória nas eleições parlamentares de novembro pode ser o começo de um alívio para todos nós.