Nem o bigodinho …

O jornalista Luiz Garcia referia-se, tempos atrás, a um amigo nosso, como sendo um otimista incurável, que edulcorava as coisas, procurando ver qualidades boas onde elas evidentemente não havia, capaz de ressalvar, ate mesmo na figura abjeta de Hitler, uma qualidade positiva: a forma escorreita com a qual ele aparava o seu bigodinho. Do pres. Bush não se pode nem dizer isso, já que ele não usa bigode.
Essas reflexões me ocorreram depois da leitura de três diferentes artigos publicados no ESTADÃO de hoje: “’Guerra Quente’ perde força, de Timothy Garton Ash, originalmente publicado no THE GUARDIAN; “O teatro da guerra”, de Ian Buruma, resenha do livro “A maior história já vendida”, de Frank Rich, divulgado pela revista “Entre Livros” e “Nova lei americana abre caminho para injustiça”, do prof. de Yale Bruce Ackerman, publicado no Los Angeles Times.
No primeiro desses artigos Garton Ash adverte para o fato terrível de que o eventual bombardeio “cirúrgico” das instalações nucleares iranianas – não obstante a reação que surge contra essa medida na própria Casa Branca – está, efetivamente, sendo cogitado, e que “no final, um homem (a) decidirá: Bush”. Pela leitura do segundo ficamos conhecendo a visão de Rich, segundo a qual “ o temor da perda de acesso ao topo bem como o terror injustificado de ser acusada de viés liberal, aleijaram a imprensa (americana) numa época em que ela é mais necessária do que nunca.” E, por fim, somos alertados por Bruce Ackerman para o fato de que a aprovação no Senado, quinta feira última, da nova lei sobre o tratamento de prisioneiros, vai deixar todos os americanos “assombrados na manhã seguinte ao próximo atentado.”
O pior é que o pres. Bush age, evidentemente, como todo político messiânico, imitando o ciclista que evita a queda iminente pedalando com mais força para a frente. É só olhar para a cara dele, com aqueles trejeitos do falecido cômico paulista Golias, para perceber que, por ele, o Irã já teria sido massacrado pelos ares, pouco importando os estragos causados a todo mundo, inclusive pelas baixas que ocorreriam, inevitavelmente, no exército americano, especialmente nas forças que estão no Iraque.
Se Bush fosse o chefe de uma ditadura esse cenário seria inevitavel. A questão é saber se a democracia tem recursos para evitar tal catástrofe. Eu acredito que sim, por exclusão. Se o sistema democrático americano não for capaz de impedir as loucuras de um presidente desqualificado para o exercício do cargo o que podemos esperar da organização política dos Estados nacionais em geral. Voltaremos para a Idade Média ? Ou para a Idade da Pedra ?
Será que voltaremos ?