PRESIDENTE DE GUERRA

Depois que o resto do mundo teve o azar de os EUA elegerem um “presidente de guerra” aumentou a insegurança geral: a carnificina no Iraque já matou 650 mil civis, diz a centenária revista médica britânica “The Lancet”, e os EUA estão perdendo a guerra lá. Dizem as más línguas de Washington que a Casa Branca está repleta de pessoas que gostam de guerras mas não sabem fazê-las.
A corrida armamentista, por outro lado, recrudesceu e a Coréia do Norte acaba de entrar para o clube atômico, onde são esperados, com o tempo, segundo dizem os analistas, cerca de 40 novos sócios. O que fazer para remendar esse estado de coisas e continuarmos a viver?
Para começo de conversa precisamos arrumar as nossas cabeças e estabelecer uma hierarquia entre os conceitos de guerra e de paz, que em geral aparecem no mesmo plano, como se fossem um a contrapartida contábil do outro. E não são !
A guerra é uma sanção de direito internacional. A paz não é uma sanção, mas a ordem que deve ser garantida pela sanção, para permitir aos seres humanos viverem em sociedade a despeito dos inevitáveis conflitos entre eles.
O cacoete de colocarmos num mesmo nível a guerra e a paz faz com que ao falarmos de uma somos levados a falar da outra, com ênfase na guerra, que é mais “notícia” do que a paz. O discurso sobre a guerra atrai o lado de estrategista que todos temos, e ocupa mais o nosso interesse do que as reflexões sobre a paz.
Para comprovar o que estou dizendo basta ler os jornais de hoje. Mesmo comentaristas aparentemente sensatos tiram conclusões surpreendentes, como Simon Jenkins, colunista do jornal “The Guardian”, que propõe aos EUA que aceitem a Coréia, ou a bombardeiem já. Acredito que ele não esteja a favor dos bombardeios, mas admite-os com uma enorme leviandade intelectual , como se os coreanos do Norte não fossem retaliar e bombardear, de volta, a Coréia do Sul, com os 30 mil soldados americanos que estão estacionados lá, e, porque não, o Japão ?
O principal problema que se coloca hoje é saber se devemos aceitar a nuclearização da Coréia e, em seguida, a do Irã, a do Japão, a da Coréia do Sul, a da Venezuela, etc, ou aplicar radicalmente o Tratado de Não Proliferação Nuclear para acabar, de vez com todos os artefatos atômicos de guerra, inclusive os americanos, os russos, os ingleses, os franceses e os chineses ( tidos como países confiáveis ), sem precisar bombardeá-los.
Se a guerra é uma sanção e a paz um modo de organização das comunidades humanas acabar com as bombas atômicas é, antes de mais nada, uma imposição lógica. A sanção nuclear é superior à qualquer ordem que ela pretenda estabelecer, invertendo-se, portanto, a equação hierárquica, que justificou a invenção da bomba. A sanção não pode ser superior à ordem.
A organização internacional – que ainda é uma ordem jurídica primitiva – não resolveu o problema fundamental de respaldar, pela força, o Direito Internacional. Não nos resta senão substituir, portanto, sanções violentas centralizadas por sanções não-violentas descentralizadas.
Temos o instrumento jurídico revolucionário para obter isso: o dinheiro. Que ostenta a vantagem de dar segurança aos ricos de não correm risco com o fim das guerras, salvo os pilantras de sempre.