UMA ENTREVISTA HONESTA DO GENERAL

O episódio da entrevista que o Chefe do Estado Maior do Exército britânico– há 2 meses apenas no cargo – deu ao Daily Mail veiculando declarações que ganharam enorme repercussão, mostrou-me como a situação política inglesa e americana está saindo rapidamente do controle de Bush & Blair.
A história, em resumo, é a seguinte: o general Richard Dannat disse ao jornal que a presença de tropas de seu país estava agravando a situação de segurança no Iraque, e que os soldados ingleses deviam ser retirados de lá. Foi além ao afirmar que a incursão britânica no Iraque agravava a ameaça à segurança em todo o mundo. Concluiu Dannat que os soldados britânicos deveriam sair em breve porque a sua presença exacerbava problemas de segurança.
O militar foi obrigado, no mesmo dia, a voltar atrás e dizer que os soldados continuarão no país árabe até que a missão seja cumprida afirmando: \”Sou um soldado. Não nos rendemos, não mostramos a bandeira branca. Continuaremos no Iraque até cumprirmos nossa missão. Iremos até o final\”.
Ele agiu honestamente tanto na ida como na volta. Ninguém espera que um militar profissional seja a favor da rendição de suas tropas. O problema é saber como devem estar se sentido os políticos governistas ingleses e americanos diante da impressão tão franca contrária à guerra manifestada pelo militar, que coincide com o que a opinião pública está pensando sobre esse assunto há algum tempo.
A verdade é que os soldados da aliança não deviam sequer ter sido enviados para o Iraque, o que os responsáveis por essa decisão não querem admitir porque isso, para eles, seria um suicídio político. Mas como continuar tentando tapar o sol com essa peneira que está rasgando de cima até embaixo ?
O primeiro ministro Tony Blair já se comprometeu a deixar o governo em breves meses. O que vai acontecer, porém, com Bush que não é um dirigente parlamentarista e que ainda tem mais de dois anos pela frente ? Não vai dar para esperar esse tempo todo a menos que ele mude e se torne um homem completamente diferente do que é: uma esperança inteiramente vã. A minha impressão é de que nos próximos meses, depois das eleições legislativas de novembro, vai ter de haver uma engenharia muito competente de desmonte da atual Casa Branca. Vamos esperar para ver.


MOEDA, PAZ e PRÊMIO NOBEL

O Comitê Noruguês da Fundação Nobel anunciou a concessão do Prêmio Nobel da Paz para o economista Muhammad Yunus e para banco Grameen Bank, de
Bangladesh, que ele fundou em 1976, graças aos programas inovadores, como os empréstimos na modalidade de microcréditos, para dar oportunidades de desenvolvimento à população carente.
Disse o Comitê, num comunicado, que uma “paz duradoura não pode ser alcançada a menos que grandes grupos da população encontrem meios de sair da pobreza. O microcrédito é um desses meios. O desenvolvimento a partir de baixo também serve para avançar a democracia e os direitos humanos. Todo indivíduo sobre a Terra tem tanto o potencial como o direito a uma vida digna\”.
Empréstimos para pessoas pobres sem qualquer garantia financeira parecia ser uma idéia impossível. O banco está presente em quase 60 países, e a imensa maioria da clientela é do sexo feminino. Como se vê, ao contrário do que supõem os preconceitos dominantes, o dinheiro e o crédito podem ser eficazes instrumentos da Paz.
Esta é, a meu ver, a leitura a ser feita da escolha da Fundação Nobel.


ESBOÇO DE UMA HISTÓRIA JURÍDICA DA MOEDA BRASILEIRA (IX)

METALISTAS & PAPELISTAS

O estudo da história monetária do Brasil, especialmente na segunda metade do século XIX, evidencia uma forte discussão travada entre as facções chamadas “papelistas” e “metalistas”. Por um lado, homens ilustres, como IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA defendiam, francamente, o largo emprego que se fez, ao tempo do Império, do papel moeda, quer de emissão do Tesouro, quer de emissão bancária. Por outro lado, muita gente defendia – e defendeu, ardorosamente, até segunda década do século seguinte – a circulação metálica, ou mista, limitada, que qualquer modo, a emissão de peças monetárias de papel à quantidade de metal mantido como lastro.

Na sua Autobiografia, escrita em 1878, MAUÁ tece os seguintes comentários favoráveis ao papel moeda: “O papel inconversível de que se serve o nosso país há mais de meio século, realizando exclusivamente com ele o desenvolvimento de seus recursos naturais e o seu progresso industrial e comercial têm reclamado, desde a compra de verduras nos mercados, até as mais altas operações financeiras, não pode deixar de ser apreciado e reconhecido como um instrumento de permutas benéfico.(… ) A esse papel se prende toda a vida econômica e financeira do Brasil. Tem sido ele o regulador da circulação de todos os valores, que representam a riqueza em nossa terra. O nosso país é o único que dispensa completamente as espécies metálicas da missão principal que o mundo econômico lhe assinalou. Estamos, pois, na exceção: como irmos buscar na regra os meios de melhorar o instrumento de que nos servimos ?”

Os Ministros da Fazenda do Império tinham, porém, opiniões diferentes das de MAUÁ, expostas, de modo mais, ou menos radical, nos relatórios anuais que dirigiam ao Parlamento. No relatório de 1859 o Conselheiro FRANCISCO DE SALLES TORRES HOMEM, depois Visconde de Inhomirim, escreve a propósito: “A existência de papel inconvertível, como meio circulante de um país, só pode ser tolerável em circunstâncias anormais e enquanto perdurarem as causas de sua existência, que devem ser logo superadas para a volta ao regime de circulação metálica ou mista, como remédio radical às grandes flutuações dos valores, sem o que a indústria e a prosperidade não podem progredir, porque lhes falta a estabilidade do valor no instrumento da circulação de seus produtos”

Nos relatórios de 1872 e de 1873 o Visconde do RIO BRANCO, chama a atenção para o estado anormal da circulação monetária, afirmando que “a massa considerável do papel inconvertível, influindo sobre o valor do instrumento principal da circulação, manifesta-se nas variações do câmbio entre a nossa praça e a de Londres”, pronunciando-se a favor “do resgate de parte do papel inconvertível do Estado, gradual e lentamente, a fim de elevar-se o valor do nosso meio circulante ao padrão legal.”

Em 1884 é a vez de LAFAYETTE RODRIGUES PEREIRA ponderar: “Não é possível desde já criar-se uma circulação metálica, mas está nos limites de uma possibilidade obter uma circulação fiduciária, com a desejável regularidade, executando-se a lei de 11 de setembro de 1846.”

Por seu turno, no Relatório de 1886, escreve FRANCISCO BELISÁRIO SOARES DE SOUZA: “É preciso atacar o mal de frente, e se não é possível de momento extirpá-lo totalmente se lance as bases de um processo que nos conduza à desejada circulação metálica com papel convertível em ouro, segundo o padrão da lei de 1846.”

O fato é que não só o papel moeda implantou-se, universalmente, como peça monetária a partir do século XX, como a História hoje reconhece que a administração do mil réis de papel do Império, ainda no século XIX, é merecedora de elogios.