ANFIBOLOGIA

O artigo do The Wall Street Journal, escrito por Deborah Salomon em colaboração com Greg Ip, publicado hoje, no Estadão, na página do The Wall Street Journal Americas, é um prodígio de ambiguidade. O título, “Como as despesas com a guerra não afetaram a economia dos EUA” ( e, bem assim, algumas passagens com referências positivas à política econômica do governo Bush ) sugerem tratar-se de um texto elogioso. Pinçando-se, porém, alguns trechos, a impressão final que fica não é nada boa, especialmente tendo em vista a seguinte conclusão: “a capacidade de Bush de sustentar os gastos e os cortes de impostos depende principalmente da boa vontade dos estrangeiros em continuar emprestando aos EUA.”

O artigo baseia-se, por sinal, na constatação empírica de que o governo americano consegue desperdiçar a dinheirama que joga fora todos os dias com a guerra do Iraque contando com a “disposição dos estrangeiros de emprestar dinheiro aos EUA, o que financia o déficit sem forçar a alta dos juros, numa época em que os americanos não poupam muito”, embora “ninguém (saiba) quando a fonte pode secar, ainda que seja certo que algum dia ela terá de acabar.” Daí porque, dizem os jornalistas, “ o orçamento que Bush propôs ontem “conta essencialmente com a continuidade da boa sorte”.

O que a gente percebe, no final da leitura, é uma íntima constatação dos autores do artigo – que eles talvez não queiram confessar – de que as despesas do governo americano são exageradas e estão sendo mal direcionadas: “alguns economistas acadêmicos estão começando a calcular” , diz o artigo, “ o que as somas gastas no Iraque poderiam financiar – um depósito para corrigir o déficit da previdência social, por exemplo.”

O fato é que eu, lendo o artigo do The Wall Street Journal, desistiria de aplicar – se os tivesse – os meus trilhões de dólares em títulos do governo dos EUA, e ia prefirir comprar papéis brasileiros que pagam, inclusive, juros mais altos.


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