DISSECANDO A NOÇÃO DE PODER AQUISITIVO (I)

“A capacidade aquisitiva”, como ensinava ARISTÓTELES ( in “Política”, tradução e notas de Manuela García Valdés, Madrid, editorial Gredos, 1999), “ foi dada evidentemente pela natureza a todos os animais, tanto desde o momento mesmo de seu nascimento, como quando acabaram seu desenvolvimento” (p.63). O exercício dessa capacidade aquisitiva constituía, por sua vez, uma arte que se incluía, em parte, na administração da casa: “a arte de adquirir (“kiêtiké”) é uma parte da administração doméstica ( pois sem as coisas necessárias é impossível tanto viver como viver bem” (p.54 )

Mas a arte aquisitiva não se manifestava, apenas, em proveito da casa, o que levou ARISTÓTELES a desenvolver a noção mais ampla de crematística, à qual cabia estudar de onde provém os recursos (“khoregías”), a propriedade e a riqueza (p.65 ). A crematística podia ser boa ou má (conforme a interpretação da tradutora Maria García, nota 66, p.64) A boa dizia respeito às aquisições para a casa, relativas, portanto, à “oikonomiké”. A má, à qual estava ligada a moeda, era a chamada “kapêliké khrêmatistiké”, que é a arte de aquisição por comércio (“kapêliké”) ou a troca por interesse pecuniário. Haveria, por último, uma forma intermediária entre ambas que é descrita na “Política” com as seguintes palavras (p.76) : “uma terceira forma de crematística, intermédia entre esta e a primeira ( já que participa da natural e da de troca) é a que se refere aos produtos da terra que, sem frutos, são úteis; por exemplo, a exploração dos bosques e toda classe de mineração.”

A primeira forma de aquisição ( a “boa” ) seria conforme a natureza, enquanto a outra ( a “má” ) resultava” de uma certa experiência e técnica” o que ARISTÓTELES explicava a partir das seguintes considerações( p. 68 ):

“Sobre este partamos do ponto seguinte: cada objeto de propriedade tem um duplo uso. Ambos usos são do mesmo objeto, mas não da mesma maneira; um é próprio do objeto, e o outro não. Por exemplo, o uso de uma sapato: como calçado e como objeto de troca. E ambos são utilizações do sapato. De fato, o que troca o sapato pelo que necessita por dinheiro ou por alimento utiliza o sapato enquanto sapato, mas não segundo o seu próprio uso, pois não se fez para a troca. Do mesmo modo ocorre também com as demais posses, pois a troca pode aplicar-se a todas, tendo sua origem em um princípio, em um fato natural: é que os homens tem uns mais e outros menos do que o necessário. Dai ser evidente também que o comércio de compra e venda não faz parte da crematística por natureza, porque então seria necessário que a troca se fizesse para satisfazer o suficiente.”(…)

“Uma vez inventada a moeda pela necessidade de troca, surgiu a outra forma da crematística: o comércio de compra e venda. No início talvez tenha sido de um modo simples e logo se tornou, com a experiência, mais técnico, na forma onde e como se fizesse a troca para obter o maior lucro. Por isso a crematística parece cuidar sobretudo da moeda, e sua função é poder considerar de onde se obterá abundância de recursos, pois é uma arte de produzir riquezas e recursos” (p.70 )

Foi em cima dessas noções, complexas desde a sua origem, que ADAM SMITH, no século XVIII, num contexto histórico muito diferente- em que as peças monetárias já não eram exclusivamente de metal – e acrescentando vários outros elementos (especialmente as idéias modernas de poder e de variação dos níveis de preços) edificou o conceito de poder aquisitivo, numa tentativa de elaborar um conceito, também moderno, de valor, que pudesse se aplicar não só ao dinheiro de metal como às novas peças monetárias de papel.

( continua )


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