DISSECANDO A NOÇÃO DE PODER AQUISITIVO ( III )

Como vimos anteriormente ( n. I) ARISTÓTELES nunca empregou a expressão “poder aquisitivo” e, quando se referiu, pela primeira vez, à “capacidade aquisitiva” destacou que essa tinha por objeto “ coisas” ao dizer: “sem as coisas necessárias é impossível tanto viver como viver bem” (p.54 da “Política”) .

Por outro lado, quando ARISTÓTELES estudou a “crematística”, definiu-a como uma modalidade de “arte aquisitiva”, que cuidava da origem e propriedade dos recursos e da riqueza ( op.cit, p.65 ).

ARISTÓTELES, portanto, separava, com nitidez, as noções de capacidade aquisitiva, de um lado, e de coisas de outro; e os conceitos de crematística, de um lado, e de riqueza de outro. Ele tinha, trambém, a preocupação de acentuar expressamente a diferença entre a riqueza e a crematística ao dizer: “…. são diferentes a crematística e a riqueza segundo a natureza: esta é a administração da casa; aquela outra arte do comercio, ao contrário, é produtiva em bens, não de modo geral, mas mediante a troca de produtos, e ela parece ter por objeto o dinheiro, já que o dinheiro é o elemento básico e o termo da troca”( p.70, op. cit )

Vimos, também, que ARISTÓTELES jamais utilizou a palavra “valor”, que sequer existia na época ( o vocábulo surgiu muito mais tarde, no latim tardio ). No trecho da Política ( pp. 68 a 70 ) transcrito em parte anteriormente ( no n.I ) ele refere-se, ao “uso” e à “troca” das coisas, e não ao “valor de uso” ou ao “valor de troca” de tais coisas.

Foi ADAM SMITH que superpôs os novos conceitos de “poder” e de “valor” às antigas noções aristotélicas de “capacidade aquisitiva” e de “crematística”, e complicou a noção de dinheiro – o que fez no seu livro A RIQUEZA DAS NAÇÕES, publicado no final do século XVIII ( cujos 5 primeiros capítulos, segundo SCHUMPETER em “História da Análise Econômica”, p. 97, são um desenvolvimento da linha de raciocínio seguida por ARISTÓTELES na “Política”).

Com suposta base em HOBBES ( para quem a “riqueza” seria “poder” ) ADAM SMITH modificou a expressão “capacidade aquisitiva” transformando-a em “poder de compra” (ou poder aquisitivo ) ao dizer: “O poder que essa posse imediata e diretamente (da fortuna) lhe confere ( à pessoa ) é o poder de compra: um certo domínio sobre todo o trabalho, ou sobre todo produto do trabalho que, nesse momento, se encontra no mercado” ( op.cit, vol. I, p. 120 ).

Ao mesmo tempo, por conta própria, ADAM SMITH aditou às expressões aristotélicas “uso” e “troca” o vocábulo “valor”. Por último, identificou ambos os conceitos novos que criara ( de poder aquisitivo e de valor de troca ), ao dizer, literalmente: “Deve observar-se que a palavra valor tem dois significados diferentes: umas vezes exprime a utilidade de um determinado objeto; outras o poder de compra de outros objetos que a posse desse representa. O primeiro pode designar-se por “valor de uso”; o segundo por “valor de troca”( op.cit p.117 ).

O “valor”, portanto, que, até então, se referia, precipuamente, às peças monetárias de metal ( e era, como mostramos anteriormente ( n. II ), ou um valor impositus, ou um valor extrínseco, ou um valor intrínseco, ou um valor nominal ) tornou-se, depois de ADAM SMITH, “o poder de compra de outros objetos que a posse desse ( isto é, a posse da peça monetária) representa”.

ADAM SMITH começou tratando dos temas aristotélicos relativos à “capacidade aquisitiva” e à “troca e uso das coisas”, mas logo transfigurou esses conceitos para dar lugar à uma nova ( e confusa ) noção, que subsiste até hoje, de “poder aquisitivo como valor de troca”( e de valor de troca como o valor do dinheiro).

Ele incidiu, com isso, no que MOORE designa de “falácia naturalística”, como veremos adiante.

( continua )


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