APROPRIAÇÃO DO TERMO “VALOR” pela economia e pela filosofia

Depois que ganhou autonomia o conceito de valor virou moda, por assim dizer. A possibilidade de avaliar, “monetariamente”, a conduta dos outros fascinou o homem moderno, que passou a empregar a palavra “valor” com crescente desenvoltura, para descrever as qualidades e os defeitos de seus semelhantes.

THOMAS HOBBES , no século XVII, já escrevia, a propósito, no “Leviatã ( acentuando a origem monetária da palavra) : “O “valor”, ou a “importância” de um homem, tal como de todas as outras coisas, é o seu preço, isto é, tanto quanto seria dado pelo uso do seu poder. Portanto, não é absoluto, mas algo que depende da necessidade e julgamento de outrem. Um hábil condutor de soldados é de alto preço em tempo de guerra presente ou iminente, mas não o é em tempo de paz. Um juízo douto e incorruptível é de grande importância em tempo de paz, mas não o é tanto em tempo de guerra. E tal como nas outras coisas, também no homem não é o vendedor, mas o comprador quem determina o preço. Porque mesmo que um homem ( como a maioria faz ) atribua a si mesmo o mais alto valor possível, o seu verdadeiro valor não será superior ao que for estimado por outros.”

Antes de ser assimilada pela Filosofia a palavra valor ingressou na Economia. Os filósofos axiológicos, por sinal, sempre pagam o tributo que julgam dever aos economistas, ao dizer que se apropriaram de um vocábulo consagrado pela ciência econômica. Isso é verdade apenas em parte, porque o termo valor foi, como já vimos, na sua origem, definido pelos juristas medievais e renascentistas, ao estudar o fenômeno das mutações das peças monetárias. Quando dizem que foram buscar a palavra valor na economia o que os filósofos talvez estejam querendo significar é que a noção de que assenhorearam foi a do economista ADAM SMITH ( vai ver é por isso que JOHANNES HESSEN, no prefácio de livro, considerado clássico, sobre o tema, escreve: “ Quem hoje quiser orientar-se acerca do problema axiológico, em matéria de Filosofia dos Valores, encontrar-se-á diante de uma imensidão caótica de orientações e pontos de vista diferentes que lhe não será fácil dominar”).

Foi KANT quem trouxe, pela primeira vez, o novo conceito para a filosofia, sem defini-lo, porém, claramente, como reclamam em geral os neo-kantianos. Mas há um trecho da “Metafísica dos Costumes” , não muito divulgado, em que o grande filósofo enfrenta diretamente a questão de saber o que é o dinheiro, e que pode ajudar-nos a entender a sua concepção sobre o valor. “O dinheiro” diz ele, “representa todas as mercadorias, uma vez que é concebido como um ‘mero meio de comércio universalmente aceito’ ( no interior de uma nação ), que não possui valor em si mesmo em oposição às coisas, que são mercadorias ( isto é, que têm valor em si mesmas e estão relacionadas às necessidades particulares de um ou outro dentro da nação. )… Contrastando com isso ( com o uso do cereal ) o valor do dinheiro é apenas indireto. Não é possível desfrutar do próprio dinheiro ou fazer uso imediato dele de maneira alguma. E não obstante isso, ele constitui um meio que, entre todas as coisas, possui: ele é o meio universal pelo qual os homens permutam entre si o seu labor… Assim, a riqueza de uma nação é realmente apenas a soma do trabalho com o qual os homens se pagam mutuamente o que é representado pelo dinheiro que circula dentro de uma nação. “

“O conceito intelectual” , prossegue KANT, “no qual o conceito empírico de dinheiro se enquadra é, portanto, o conceito de uma coisa que, na circulação das posses ( permutatio publica ) determina o preço de todas as demais coisas ( mercadorias ), entre as quais se encontram, inclusive, as ciências, na medida em que não seriam, de outra maneira, ensinadas a outros. A quantidade de dinheiro numa nação, assim, constitui sua riqueza (opulentia ), uma vez que o preço ( pretium ) de uma coisa é o julgamento do público sobre o valor (valor ) dela proporcionalmente àquilo que serve com o meio universal de representar o intercâmbio recíproco do trabalho ( sua circulação )… (Quando os ) metais não são apenas pesados, mas também cunhados, isto é providos de um sinal que indica quanto devem valer, passam a ser dinheiro legal, isto é, moeda. “

KANT conclui o seu breve estudo afirmando que a definição de ADAM SMITH sobre moeda – que ele cita expressamente – “torna o conceito empírico do dinheiro subordinado a um conceito intelectual, por se referir apenas à forma daquilo que cada parte concede em retorno à outra em contratos onerosos ( e abstraindo de sua matéria ) com isso trazendo-o ao conceito de direito na troca do que é meu ou teu em geral ( commutatio late sic dicta ), de modo a apresentar o quadro anterior como uma divisão dogmática, a priori, o que se mostra adequado à metafísica do direito como um sistema.”

A exposição de KANT – embora não me pareça ajudar muito a esclarecer o significado da moeda, e na qual a peça monetária ( ou “coisa”) está muito presente – evidencia que ele tinha conhecimento das doutrinas jurídicas e econômicas sobre o dinheiro e o valor, o que se percebe quando ele toca nos seguintes pontos normalmente tratados no estudo da questão: moeda como meio de pagamento e como medida de valor; moeda como símbolo que representa todas as mercadorias; uso e troca ; o trabalho como conteúdo do valor e, por último, o dinheiro significando riqueza. Essas noções estavam provavelmente presentes na mente do mestre de Königsberg quando ele trouxe para a filosofia o conceito de valor.


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