CONVERSAR É PRECISO

Muita gente de peso concorda com a viagem da deputada Nancy Pelosi à Síria, dando início às conversações que os EUA têm que inevitalmente manter com países adversários para tentar equacionar a situação que resultou da ilegal invasão do Iraque.

Assim como navegar, conversar é preciso, como ficou, inclusive, evidente, numa escala menor, no recente caso da apreensão de uma embarcação inglesa pelo Irã no golfo pérsico, que se encaminha, rapidamente, para a libertação dos marinheiros detidos.

A retórica da Casa Branca de enquadrar Estados ou nações de que não gostam como “terroristas” é uma tentativa anacrônica de repetir a tática que foi usada com sucesso anteriormente de combater, mundialmente, primeiro o fascismo, depois o comunismo. O terrorismo, diferentemente do fascismo e do comunismo, não é uma política de Estado, embora se designem, às vezes, figuradamente, certas ações de governos, como “terrorismo de Estado”: trata-se de uma tática que consiste, especialmente, em disseminar o medo e o pânico por meio de ações contra a população civil inocente.

Quando os insurgentes, mesmo os que usam táticas terroristas, conseguem instituir uma ordem jurídica nacional, passam a agir de modo inteiramente antagônico ao que preconizavam nos tempo do terror. O próprio Hamas, depois que ganhou as eleições populares palestinas há um ano, já está mudando visivelmente de comportamento, conseguiu se aliar aos moderados do Fatah e está tendo que resolver as tarefas diárias de construção de consensos que o exercício de qualquer governo, mesmo os autoritários, requer. Se a Al Qaeda chegar ao poder no Paquistão, como temem muitos americanos, os seus dirigentes adquirirão as mesmas características dos políticos em geral, e deixarão, certamente, de ser terroristas. As táticas do terror, e as funções de Estado, são, em suma, incompatíveis.

A contraposição que deve ser levada em conta é entre Estados autoritários e democráticos. Como os EUA, na década de 1940, venceram a guerra contra os regimes autoritários alemão, italiano e japonês, e, na década de 1960, decidiram, a seu favor, o conflito pacífico contra os regimes autoritários russo e da Europa Oriental, acham que podem continuar usando contra os novos adversários o mesmo discurso que então empregavam contra aqueles.

A política da Casa Branca de não querer conversar com a Síria, o Irã – e, mesmo, o Hamas e o Hezbolah – sob a alegação de que ou são terroristas, ou filo terroristas, só tem isolado os EUA no plano internacional, o que a presidente da Câmara dos Deputados, a terceira na linha de sucessão no governo americano, com a sua “excelente idéia” de visitar Damasco, está tentando consertar.


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