FRAGMENTOS: a música e eu (1)

Minha mãe sempre foi musical, ao contrário de meu pai, um grande desentoado. Mas as canções que cantava, algumas de ninar, eram muito antigas, e ela não sabia bem empostar a voz. Lembro-me de duas de suas baladas preferidas: “Era o meu lindo jangadeiro, de olhos da cor do verde mar” e “Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá seu pensamento”. Havia também uma outra, muito bonita, que eu cantei mais tarde, para os meus filhos: “ Deixa a cidade formosa morena, linda pequena e volta ao sertão.” Titio Edgard, irmão dela, esse sim, era um bom barítono. Ele, contudo, tinha dúvidas existenciais se devia continuar a cantar no tom de barítono, ou se tornava tenor, o que atrapalhou a sua carreira.

A rua Lopes Quintas, no bairro do Jardim Botânico, perto da Tabira, onde nasci e fui criado, era um reduto de músicos e poetas. Os trabalhadores da fábrica de tecidos Carioca moravam por ali e gostavam de se reunir, nos fins de semana, em torno de “regionais” – compostos de violões, cavaquinho, pandeiro e,algumas vezes, de flauta – dos quais assisti a muitos ensaios. Lembro-me de ter ouvido, numa ocasião, uma apresentação do Nelson Cavaquinho, aparentado de um companheiro meu.

Do Jardim Botânico saía, naquele tempo, o Bloco da Bicharada, que era comandado pelo Haroldo Lobo. O bloco partia da Avenida Maia, passava pela Ponte de Tábuas e desfilava na avenida Jardim Botânico. Quando eu não ia para a calçada vê-lo passar, podia ouvir o seu som, à distância. Guardo na memória um samba formidável, cujo refrão, de noite, chegava até minha casa: “Fui um louco em deixar os carinhos, do meu primeiro amor, eu era tão criança, mas : guardo na lembrança, pra que eu fui fazer, de mim um sofredor.”

Não tínhamos muitos discos em casa. Papai gostava do Pedro Vargas, e foi dele a gravação de que tenho a primeira lembrança, um disco RCA Victor, com selo azul, contendo o Farolito, a Vereda Tropical e um outro que dizia assim: “ Ahora seremos felizes, ahora podremos cantar, aquella canción que disse assi, com su ritmo tropical: La La La La La rá, La La La La La La La”. De vez em quando meus pais compravam discos que eram lançados na proximidade do Carnaval, especialmente as marchinhas. Recordo-me, também, da gravação de uma música que venceu um concurso patrocinado pelo governo Vargas, chamada Garimpeiro do Rio das Garças, cantada, se não me engano, pelo Chico Alves.

Papai gostava muito de de óperas: ele tinha dois álbuns RCA de 78 rotações, selo vermelho, de 12 polegadas, em que o Beniamino Gigli cantava Pagliacci e La Bohème. Ouvi, durante anos, compulsivamente essas duas óperas, acompanhando o libreto, que acabei, praticamente, decorando, o que me ajudou mais tarde a entender razoavelmente a língua italiana. Titia Angelita, casada com titio Aníbal, pais de Puluzinho e Barãozinho, que moravam em Niterói, também tinha uns discos de ópera, que eu ouvia às vezes numa vitrola antiga. Uma prima de meu pai, a Lurdes Medeiros, me deu uns discos com trechos da Cavalleria Rusticana e de canções espanholas cantadas pelo Tito Schipa, uma das quais, Canta Vagabondo, virou marcha de Carnaval, gravada pelo Carlos Galhardo, que era um cantor do qual a minha mãe gostava muito, o que mostra a falta de apuro do seu gosto musical, mesmo porque, simultaneamente, ela implicava com as vozes do Dorival Caymi e do Francisco Alves.

Minha irmã, ainda menina, aprendeu acordeom com o professor George Brass, que tinha uma escolinha em Copacabana, na rua Miguel Lemos. Eu também tentei mas, logo, não sei porque, abandonei o instrumento. Tive, então, contudo, o meu primeiro contacto com algumas partituras, que me dava prazer em tentar entender. Havia um álbum americano que me parecia de muito bom gosto. A Ana Maria, minha mulher, também quis, numa época da vida, aprender acordeom, mas ela nunca teve jeito para música. No colégio São Fernando ela fazia parte do grupo da quarta voz, e era do coro dos desafinados, que apenas soletravam as letras, sem precisar cantá-las.

(continua)


4 comentárioss até agora

  1. Nilza Melona janeiro 12, 2010 11:27 am

    Que alegria encontrar alguém retratando coisas da minha infância… e que não voltam mais! Parabéns pelos “fragmentos” consistentes!
    Nasci numa das casas da Fábrica Carioca, na Pacheco Leão, assim como meu pai. Morei por 30 anos na Lopes Quintas, quinze dos quais na Av. Maia. “Presenciei”, portanto, a movimentação dos compositores da época, os artistas que lá frequentavam, a formação de blocos à fantasia, os blocos de sujo, acompanhei muitos blocos da bicharada e o nascimento de músicas de Haroldo Lobo que, caso caissem no gosto do povo, eram gravadas no ano seguinte sempre com sucesso. Pena não termos imagens – que eu saiba – desse tempo, agora que Haroldo Lobo estaria completando 100 anos, mas que permanece vivo através de suas músicas…
    Obrigada pela volta ao passado e, mais uma vez, parabéns!

  2. letacio janeiro 12, 2010 1:36 pm

    Foi grande, também, a minha alegria, ao ler o seu comentário. Guardo as melhores recordações daquele meu tempo, da Lopes Quintas, da avenida Maia e do Bloco da Bicharada. Não tenho fotos dessas lembranças, o que é pena. Muito obrigado por ter aparecido no meu Blog. Letácio

  3. Elvira Correia Luiz Soares fevereiro 9, 2010 10:51 am

    Dr Letacio:como sempre tudo que o senhor escreve é maravilhoso. Adorei! Espero que se lembre quem sou. FIquei muito feliz em achar um meio de comunicação consigo tenho ligado para seus telefones e não mais o achei. Gostaria muito de entrar em contato consigo. Estou precisando de uma orientaçao jurídica e tenho certeza que a mesma será otima, se possivel. Abraços á todos, beijos na Ana e nas cianças grandes. Elvira

  4. Elvira Correia Luiz Soares fevereiro 9, 2010 10:54 am

Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.