FRAGMENTOS: a música e eu ( final )

Mas o meu papel de divulgador da música brasileira decorreu, mesmo, de uma paixão juvenil pela Yedda Maria Brito de Oliveira Sampaio, uma morena encantadora que conheci aos quinze anos de idade, que, por sua vez, para minha frustração,era apaixonada pelo Milanês. Ela aprendia violão com uma professora muito popular no Rio, que exibia as meninas num festival na Igreja N. S. da Paz,em Ipanema, a um dos quais eu compareci , ao lado do Fernando Gebara. Uma das músicas que Yedda tocava era o Iarupuru, que tinha uma baixaria linda, em tom menor: “Certa vez de montaria, eu descia o Paraná, e o caboclo que remava, não parava de falar, ah ah não parava de falar, ah ah que caboclo falador.”Foi uma das músicas que eu mais toquei desde então, quando me exibia ao violão.

O grande músico da nossa turma era, sem dúvida, o Fernando Gebara, que tinha aprendido violino e depois passou para o violão e para o cavaquinho. Ele era um professor extremamente paciente, que tentava me ensinar tudo o que sabia.Reuníamo-nos na casa dele, na rua Miguel Lemos, onde nasceu o conjunto Chiquinho e seu Ritmo, que marcou época no Colégio Mello e Souza. O Chiquinho, líder da banda, era o Francisco Cavalcanti da Cunha Horta, depois juiz de Direito e presidente do Fluminense, sobrinho do Flávio Cavalcanti. A banda Chiquinho e seu Ritmo tocou no colégio, e fez muitos bailes no clube dos Caiçaras. Apresentamo-nos, também, num programa da Rádio Nacional, chamado “Papel Carbono. A nossa apresentação foi um sucesso, com o Gebara solando o Delicado, do Waldir Azevedo, no cavaquinho, acompanhado por mim no violão, pelo Chico, na bateria, e o Thomas no pandeiro. O bolero “Perfídia” foi o bis, e nele o Aloysio tocou piston. Mas o Renato Murce não gostou da voz muito rouca e escura do Diaci, criticando-nos de público, o que muito o traumatizou o nosso crooner, pois a família dele estava reunida ouvindo o programa no Ceará, o que o levou a nunca mais cantar. Mais tarde, por meu intermédio, que tinha conhecido o Ari Barroso na casa da Marly Castilhos,comparecemos ao seu programa de calouros na televisão por duas vezes. O conjunto Chiquinho e seu ritmo era muito bom, especialmente pela qualidade dos pianistas,primeiro a Silvinha Fang, depois substituída pelo Luizinho Eça.

Compus várias músicas para a Yedda, em parceria com o Gebara. A primeira delas chamava-se Itaipava, em homenagem à cidade serrana onde ela passava as férias: “ Itaipava, lá deixei meu coração, terra tão boa, como tu não há oh não. E nas noites de luar, em tocava violão, com a lua a escutar, a minha triste canção. “ Mas a melhor música que eu fiz foi, na verdade, para a Vânia Rocha Assis, e se chama “Humilhação”, que diz assim: “Eu por mim quero voltar, mas, o orgulho não permite não, os amigos o que vão dizer, é humilhação; eu , não quero confessar, que, sou louco por você, longe, permaneço, mas de você não me esqueço, meu amor” .

Minha irmã gostava de música americana. Ela e o Alfredinho de Paula, nosso vizinho dos fundos, eram muito amigos. Freqüentávamos as reuniões de jam session da casa dele, onde tocavam o Armandinho Maia, grande baterista, o Dinarte, guitarrista, o Marcos Spilman, no saxofone, e até o Cyl Farney, irmão do Dick Farney. O Alfredo tocava muito bem piston, melhor do que o meu maior amigo do colégio, o Aloysio Campos da Paz, embora este fosse, sem dúvida, mais musical do que o Luiz Garcia e o Carlos Luiz Perez, nossos colegas de turma, a quem tentamos, inutilmente, ensinar saxofone.

O Rio de Janeiro acalentou-me, desde cedo, com muita música, durante a vida inteira. Basta lembrar que assisti ao Pixinguinha tocando, ao lado de Benedito Lacerda, numa espécie de coreto que o leiloeiro Afonso Nunes armava no quintal da sua casa em Jacarepaguá em festas de São João que dava em homenagem à família forense carioca. Mais tarde, adolescente, ficava horas a fio ao lado das orquestras dos maestros Severino Araújo, Carioca e Spilmann , ouvindo as suas exibições nos bailes de fim de ano nos salões da Associação dos Empregados do Comércio. Fui saudavelmente impregnado de sensações musicais que sintetizei e me incumbi de divulgar. Isso tudo forjou, em grande parte, a minha personalidade.

O fato de termos sido a capital da República atraía para o Rio os mais diferentes artistas. O João Gilberto, por exemplo, que era primo do meu amigo Newton Viana de Albuquerque, ensinou-nos, pessoalmente, a mim e ao Gebara, em reuniões que fazíamos na frente da casa do dr. Gastão Lobão, na rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, a sua batida absolutamente original no violão, que iria dar nascimento, pouco depois, ao ritmo da bossa nova, que revolucionou a música popular brasileira ( cuja evolução, infelizmente, eu não consegui acompanhar, o que me tornou com o tempo tão saudosista que acabei arquivando o violão)

Desfilamos na Portela durante vários anos com a Silvinha e o Carlinhos Monte, pais da Marisa, cuja bisavó, d. Elza Bastos Neto, filha do dr. Miguel Couto, era dona de Perinas, em Cabo Frio, também freqüentada pelo Billy Blanco. O fato de termos sido passistas da Portela nos granjeou a admiração dos filhos do Pepê da Maria Eunice, Thiago, Margarida e Carolina, que passavam as férias conosco em Terezópolis, e hoje comandam o Carioca da Gema, da Lapa, que reconta, ao vivo, diariamente, para as gerações futuras, um pouco dessa história da música no Rio de Janeiro.


1 comentário até agora

  1. Carlos outubro 31, 2007 5:12 pm

    Alô Letacio,Bons tampos .Ai,que saudades !
    Naõ me lembrava que tinham chegado a se apresentar na Rádio Nacional.Creio que você tenha se esquecido do mais musical de nosso grupo, Roberto Goulart.Nunca conheci alguem que harmonizasse como ele.Parecido,talvez Frank ou Ding.
    Participei por varias vezes,na calçada em frente a casa do Gastão,das noites musicais.Newton V de Albuquerque,seu primo Helio,Gastão Rubens e João Gilberto.Lembro-me bem que o que mais gostavamos eram “O Pato”e “Os Três Ursinhos”. Abraços

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