FRAGMENTOS II: namoros com a política

No final da rua em que nasci e morei até os 25 anos havia uma pequena vila operária onde residiam quase todos os meus amigos de infância, como o Joel e o irmão dele Jocyl, o Jorge, o “Cara de Jaca”, a Neuza e a Maroca, e tantos outros. Na rua Corcovado, bem perto, moravam mais alguns meninos, como o Fuzila, o Paquinha e o Haroldo. A convivência com eles, bem mais pobres do que eu, foi responsável, em parte, pelas minhas igualitárias convicções políticas futuras. Antes, contudo, de ser eleito, em 1957, presidente do Centro Acadêmico Luis Carpenter ( pela Aliança Liberal Universitária, ALU, o partido conservador da Faculdade de Direito do Catete) eu ainda era um “ alienado”, muito influenciado pelo meu querido amigo Luis Leonardos, que tinha me convencido, inclusive, numa eleição, a votar no Juarez Távora, e não no Juscelino, do que até hoje me arrependo.

Nascido em 1935 vivi alguns reflexos da Segunda Grande Guerra, para a qual temia que papai fosse convocado. No início do conflito eu era grande admirador dos ingleses , meus antepassados por parte de mãe. Colecionávamos uns foles, que eram pequenos broches distribuídos no âmbito de uma campanha de esforço bélico, vendidos ao ensejo de cada avião inimigo abatido. Mais tarde tornei-me adepto fervoroso dos americanos. Odiava os membros do eixo, especialmente os japoneses, que eram pintados, pela propaganda como dentuços e traiçoeiros. Tinha, porém, dois amigos alemães no bairro: a Renata , de cujo pai eu desconfiava, pois achava que ele tinha um rádio transmissor de alta potência, que podia mandar informações sigilosas para a Alemanha; e o Bube, filho de “seu” Francisco Tobich, que trabalhava na Light e, talvez por isso, não tenha sido perseguido.

A transformação ideológica pela qual passei começou como repúdio ao anti-comunismo intolerante que grassava na minha Faculdade, e acabou afastando-me da ALU. No final do meu mandato na presidência do CALC aproximei-me da esquerda, especialmente do movimento para a eleição do Alfredo Viana para a União Metropolitana dos Estudante. Éramos um grupo moderado, em geral católicos – o Alfredo e o Paulo Alberto tinham sido ambos presidentes do Centro Acadêmico Eduardo Lustosa, da PUC – o que não impedia que os adversários nos considerassem joguetes nas mãos dos comunistas. Aprendi, nessa época – especialmente com o Azulino Joaquim de Andrade Filho, que foi meu Secretário Geral no Centro Acadêmico, viera do colégio Pedro II e conhecia bem a dinâmica da política universitária – a participar de Assembléias Gerais, a fazer conchavos e a dirigir Mesas. O meu aprendizado deveu-se , também, às lições amigas da Naume Ladoswky e do José Rosa Filho.

Quando conheci a Ana Maria ela era a única getulista do grupo de jovens hospedados no Hotel Glória, em Caxambu, na estação de águas de 1958. Todos eram udenistas e lacerdistas menos ela, cujo tio, Nero Moura, depois eu soube, tinha sido o piloto preferido de Vargas. Lá em casa nós também simpatizávamos com Getúlio Vargas e o seu Partido Trabalhista Brasileiro. Essa minha simpatia pelo PTB descambou, na década de 1960, num certo populismo, do qual custei a me livrar, e que me levou a apoiar, durante muito tempo, o gaucho Leonel Brizola, de quem acabei tornando-me Procurador Geral, na Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro, onde ingressei por concurso em 1963.

(continua)


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.