FRAGMENTOS II: namoros com a política ( final )

Casei-me com a Ana em 1961, logo começamos a ter filhos, e precisava trabalhar duro no escritório de advocacia de meu pai para manter a família. Ainda assim, não perdi contacto com os antigos companheiros da política universitária, com quem fazia várias reuniões. Lembro-me bem de um desses encontros, na casa do Hélio Saboya, cujos participantes, segundo ele me disse depois, foram, em épocas diversas, todos presos, por motivações políticas, menos eu .

Com o endurecimento do regime militar as nossas atividades políticas foram se esgarçando, até serem inteiramente neutralizadas. Foi uma pena que a minha geração tenha sido dispersada pelo golpe de 1964. Muitos aderiram à luta armada. Eu mesmo fiquei tentado, numa ocasião, a me tornar guerrilheiro – vejam só! – o que um oficial da aeronáutica meu vizinho, coronel médico Lauro de Amorim Moura, bondosamente me aconselhou a não fazer.

Ao ingressar na Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro aproximei-me de um pequeno grupo de colegas de esquerda, dentre outros o Hélio Saboya e o Augusto Thompson. Tornei-me grande amigo do Miguel Baldez, com quem trabalhei no Núcleo de Regularização de Loteamentos, integrado, ainda, pelo Paulo Leão, pelo promotor Cláudio Ramos e pela Lúcia Léa Guimarães Tavares, atual Procuradora Geral do Estado. Identifiquei-me na Procuradoria, também, com o Dirceu de Oliveira e Silva,que conhecera antes no Sindicato dos Advogados. Trabalhamos juntos na Secretaria de Serviços Públicos, onde convivi com dois militares da reserva, ambos nacionalistas, o general Salvador Mandim e o coronel Paulo Leitão de Almeida – este último meu amigo até hoje.

Na política de classe dos advogados fui conselheiro da OAB nos níveis estadual e federal e membro da diretoria do Instituto dos Advogados Brasileiros que teve, na gestão Seabra Fagundes, um papel importante na luta contra a ditadura. Era um tempo de muitas passeatas. Por ocasião de uma delas recebi um telefonema do Antônio Sérgio Mendonça, meu estagiário no escritório, que me pedia a interferência para livrá-lo de um cerco policial num edifício do centro da cidade. Quando, depois de uma certa hesitação, decidi dirigir-me ao local, recebi uma mensagem dele dizendo que tinha conseguido escapar. Ainda bem !

Fui membro do antigo Movimento Democrático Brasileiro, ao qual me filiei pelas mãos do Paulo Alberto, então, deputado estadual. A minha experiência partidária não foi muito edificante. Quando o partido foi presidido, no Rio, pelo deputado Léo Simões, eu apenas recebia telegramas de congratulações pelos meus aniversários, mas não era convocado para nada, o que me decepcionou.

Em 1971 o Laudo de Almeida Camargo, então Presidente do Conselho Federal, indicou-me para representar a OAB no curso superior da Escola Superior de Guerra, na vaga do conselheiro Arnoldo Wald, que tinha sido escolhido, mas desistiu do encargo. O ambiente na Escola era muito pesado, repressor e opressivo. Dei-me melhor, além dos civis – como o Silveira Lobo e o Luiz Renato Caldas – com o pessoal da Marinha, que me pareciam os mais bem preparados. Éramos colegas, porém, de uns oficiais do exército meio esquisitos: um deles, um coronel, simpático e muito engraçado, mas que, quando comandara uma unidade na Bahia, tinha mandado cortar o cabelo do Caetano Veloso; outro, general de brigada, que gostava de fazer trovinhas líricas, de quem falavam, contudo, que tinha sido torturador. Eu – que, na época, gostava de usar cabelos compridos e gravatas coloridas – fui, decerto, um estranho nesse ninho.

Numa ocasião, na viagem de estudos aos EUA, fui alertado pelo bancário Moacyr, meu colega – nós todos éramos denominados segundo as nossas patentes ou profissões – que estava sendo observado pela direção da Escola, pelo fato específico de ter usado sapatos sem meias num churrasco à noite promovido por militares americanos em nossa homenagem. Essa má vontade do corpo permanente da Escola em relação a mim – da qual quase resultou a minha expulsão – deve ter prejudicado a campanha do Silveira Lobo, meu companheiro de todas as horas, para ser escolhido o orador de turma.

Quase no final do curso da ESG, o General Rodrigo Otávio Jordão Ramos, um militar favorável à abertura lenta, gradual e segura, assumiu o comando da ESG e eu, como advogado liberal, fui indicado como relator de um Trabalho Especial de Turma sobre a necessidade de o Brasil retornar à democracia. Pouco antes do dia da leitura do meu relatório outro colega, o empresário Ari Marchesini de Matos, me informou que o general Rodrigo Otávio tinha caído em desgraça e que um novo comandante, linha dura, ia assumir em seu lugar. Fui obrigado a amenizar, na última hora, alguns trechos do meu discurso.

Dez anos depois, em 1981 voltei a me aproximar dos militares que apoiavam o projeto do Aloysio Campos da Paz, presidente da Fundação das Pioneiras Sociais, de construir uma rede de hospitais públicos, na área de ortopedia. O vice presidente da Fundação, Embaixador Carlos Luiz Perez, tinha sido meu colega de colégio e de faculdade. Defendíamos uma assistência medicina pública, em tempo integral e dedicação exclusiva, bandeira, também, dos médicos e sanitaristas ligados PT e ao PC d B, com os quais o Aloysio, porém, tinha uma relação de amor e ódio, o que acabou provocando uma greve de grandes proporções em nossos hospitais.

Os meus namoros com a política, embora tênues, foram constantes e ocorreram em várias e diferentes áreas. Participei, por exemplo, por mais de vinte anos, da administração comunitária de Nova Ipanema, tendo ajudado a idealizar o atual sistema democrático de direção do condomínio, uma espécie de parlamento em miniatura. Fiz, também, durante a vida inteira, intensa política familiar, tratando meus filhos, especialmente os dois mais velhos, quando pequenos, como se fossemos “companheiros”, cujo adversária, algumas vezes, era a mãe, que me considerava, talvez por isso, um demagogo.

Em certas ocasiões agi, politicamente, com grande ingenuidade: basta ver que tentei convencer o Sérgio, filho do Carlos Lacerda, numa época, a deixar de ser… lacerdista. Num outro ensejo critiquei, na faculdade, o meu amigo Leandro Konder, porque ele tinha se aproximado politicamente do Padilha Sodré, principal líder esquerdista do alunato, dizendo que gostava mais dele “como era antes” ( isto é, quando ele ainda não era ligado ao partidão ) o que motivou uma gozação que me perseguiu durante alguns anos.

Com 71 anos, ajudado pelo Octávio de Paula Fonseca, tornei-me um blogueiro. O mundo em que vivemos está, de novo, muito tenso e radicalizado, entre direita e esquerda,de modo que achei oportuno publicar minhas opiniões na Internet, analisando os fatos nacionais e internacionais a partir de uma perspectiva jurídico-monetária. Defino-me, hoje, como um democrata de esquerda, não populista, defensor do aprimoramento da Ordem Jurídica Internacional e a favor da paz através do Direito.

Os dois principais combates políticos que travei durante a vida – primeiro a luta contra a Light (da qual resultou a nacionalização da antiga Societé Anoyme du Gas de Rio de Janeiro) e, depois, contra a correção monetária – têm origem, respectivamente, na minha vocação nacionalista e na antipatia que sempre nutri pela ditadura militar brasileira que, para atender, em grande parte, aos interesses da Light, inventou essa modalidade de indexação.

Não fui mais do que um ator coadjuvante na política brasileira. Mas quem sabe se não mereço um “ Oscar” pela coerência e pelo conjunto da obra!


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