FRAGMENTOS III – escritor/editor

Minha primeira obra literária foi uma quadrinha que papai me ajudou a fazer para a Cecília Bidart e dizia assim: “Essa menina que eu amo, tem uma coisa que encanta, um sorriso todo o ano, numa boquinha de santa.” Tinha a mania de santificar as minhas paixões infantis, como ocorreu com a Olguinha Lima Câmara e com a Maria Helena Schiling, do colégio Menino Jesus, e, mais tarde, com a Lúcia, irmã da Cecília, que um dia me disse achar-me muito pouco animado, talvez por causa disso.

Ao lado do colégio Mello e Souza, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde eu estudava, havia a livraria Iracema, de uma família cearense muito simpática, cujas estantes de livros eu percorria avidamente todos os dias, depois das aulas. Gostava, especialmente, dos livros da editora Vecchi, que tinham umas capas lindas. Colecionava as histórias de Tarzan, do Edgard Rice Burroughs, todas muito bem traduzidas para o português. Li, ainda, de cabo a rabo, a coleção Terramarear, de livros de aventura.

Gostava de escrever versos. Transfigurava todas as meninas em personagens poéticas o que, infelizmente, distanciava-me delas, exceto das que eram, também, literárias, como a Atalá Moreira de Sá. Mas eu tinha, por fora, umas namoradinhas mais carnais, especialmente algumas amigas de minha irmã. Fazia algum sucesso como escritor entre os colegas de colégio, mas perdia na concorrência com o Luiz Garcia e o Leandro Konder, que eram melhores do que eu, embora eu fosse melhor do que o Careca, do que o Joca, e do que o Aloysio. Além de ler muito e de ter sido bom aluno de português – da d. Adalgiza, no primário, da d. Amélia, no ginário, e do professor Miguel Dadário, no clássico – sempre fui um ótimo digitador, o que muito me ajudou na carreira.

Produzi contos, novelas, peças de teatro, crônicas e dei a partida em alguns romances, estes, em geral, históricos, um dos quais começava assim: “ Estamos na velha Inglaterra, no ano de 1879”. Um outro romance chamava-se “Minha vida e meus amores”. Eram textos que continham os ingredientes necessários de intriga e de aventura, mas que logo perdiam fôlego. Não conseguia fazer nada definitivo. Meu pai , nesse campo, fora muito mais longe do que eu, tendo publicado, no Recife, aos dezesseis anos, um livro de poesias, com sonetos muito bonitos, num dos quais ele se lamuriava: “Dezesseis anos, e penei já tanto, sou moço e da velhice o gelo tenho ( …. ) carrego, qual Jesus, pesado lenho”. Sempre achei o título do livro meio estranho, “Cabaz de Cleópatra”, mas há nele poesias muito boas, como “Lição de amor” que começa assim: “Queres saber amar ? É fácil, eu te ensino …”. Esses versos inspiraram-me a compor, mais tarde,para a Ana Maria – de resto com um certo exagero – uma canção que dizia: “Ontem, era ainda uma criança, que mudança, que se deu. Hoje ela me bota na chinela, quem me ensina amor é ela, com as lições que aprendeu”.

Embora tenha começado a estagiar no escritório de advocacia de meu pai com apenas dezoito anos o trabalho não prejudicava o meu lirismo. Escrevia, agora, cartas de amor para a Vânia, quando ela ia de férias para Santa Catarina, que ficaram, contudo, perdidas, pois, num momento de briga, trocamos as nossas respectivas coleções. Além disso fazia quadrinhas para as meninas do Sion com quem eu ia de férias para Petrópolis. Papai tinha um dicionário de rimas,creio que do Guimarães Passos, que me auxiliava muito.

Na Procuradoria do Estado descobri o prazer de fazer pareceres. O José Eduardo Santos Neves me dizia que ele – assim como os poetas gostavam de fazer sonetos – adorava escrever petições. Já a minha alegria era escrever um parecer, especialmente quando o texto – selecionado pelo José Carlos Barbosa Moreira, diretor da nossa Revista de Direito – era impresso em letra de forma. A sensação de ter um trabalho impresso é deliciosa. Quando o Luiz Garcia publicava os artigos que eu enviava para ele, no GLOBO, ficava dias na expectativa de vê-los editados.

(continua)


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