FRAGMENTOS IV: o senhor Ferreira

O nome forte na família é Jansen. Meus filhos Flávio e Rodrigo, por exemplo, são conhecidos como Jansen, o que só não acontece com o Letácio ( filho ) porque o nosso prenome comum é mais forte ainda. Os netos, filhos das duas filhas, são, também, meio Jansens: Jansen Corn, os três da Adriana, e Jansen Barreto, os dois da Renata. Quando viajo, porém, prevalece o último nome do passaporte: Ferreira. Pensei em acrescentar um hífen, para que, no exterior, continuasse a ser Jansen ou, mais exatamente, Jansen-Ferreira – mas não deu certo. Nas minhas viagens internacionais vige, portanto, um heterônimo: o senhor Ferreira.

Fui, pela primeira vez, ao exterior com onze anos de idade. Nossos pais não gostavam de ficar muito tempo longe de mim e de minha irmã, e não havia, a rigor, ninguém disponível para cuidar de nós, pois a única avó que restava viva – a vovó Cotinha – não tinha mais jeito nem paciência para lidar com crianças. Mamãe e papai, sempre preocupados, achavam, além disso, que podiam morrer nas viagens e acreditavam que, nesse caso, era preferível ir todo o mundo junto do que ficarmos sós neste mundo, sem eles por aqui para nos protegerem. Essa idéia de morte da família causava-me, evidentemente, um amargo sentimento de culpa, e eu seguia para essas viagens como se partisse para uma espécie de suicídio coletivo, não obstante acabasse gostando do programa. Foi muito mais tarde que aprendi com a minha mulher a viajar por puro prazer.

Essa primeira viagem foi pelo mar e teve como destino Montevidéu e Buenos Aires. Lembro-me, até hoje, do pequeno navio em que viajamos, de bandeira italiana, denominado “Argentina”, com longas filas de cadeiras do convés e o som estridente de um fonoclama, que irradiava mensagens periódicas aos membros da tripulação, uma das quais muito freqüente que dizia: “maestro carpentiere, subito …” Em Montevidéu ficamos no hotel Nogaro, que não sei se ainda existe. O Uruguai, nessa época, era considerado a suíça sul americana. Buenos Aires também, nesses tempos de Perón, vivia uma fase de intensa euforia. A Argentina parecia muito mais adiantada do que o Brasil e lembrava a Europa. Os restaurantes, à noite, viviam lotados. Papai me estimulava a andar sozinho nas cercanias do hotel, o que me fazia sentir uma pessoa importante e amadurecida. Voltamos num trem conhecido como “Trem Internacional” que saía de Uruguaiana com destino a São Paulo, e era famoso pela qualidade da comida do vagão restaurante.

Em 1950, papai nos levou para o EUA num DC-6 da Braniff que pousava em vários aeroportos latino americanos, inclusive Havana, até chegar em Tampa. Compramos, então, dois carros, um em nome de meu pai e outro de minha mãe, para revender no Brasil. O lucro com a venda dos carros pagou o custo todo da viagem da família. Fiquei encantado no primeiro contacto com Nova Iorque, mesmo tendo-a achado cinzenta e esfumaçada. Almoçava num restaurante automático, onde os pratos, inclusive uma deliciosa torta de maçã de sobremesa, ficavam em recipientes de aço e vidro, que se abriam ao comando de uma moedinha de 25 cents. Voltei, depois, várias vezes , a Nova Iorque, subindo, numa delas, pela única e última vez, nas Torres Gêmeas, de onde a vista era, de fato, muito bonita. Numa outra ocasião o Gary, meu genro, levou-me para conhecer Long Island, com as suas inúmeras enseadas, próximo a uma das quais ele morou durante os anos de sua juventude.

Os passeios ao exterior ajudaram-me a desenvolver meu talento literário. Preenchia vários cadernos, em prosa e em verso, com comentários sobre as minhas novas experiências, que pareciam aos meus pais muito inspirados. Quando fomos, no ano seguinte, à Europa, além de escrever um diário, dediquei-me a comprar livros de literatura, em Lisboa, Madrid, Paris e Roma, como se fosse um poliglota. A Europa, em 1951, ainda exibia as cicatrizes da guerra, especialmente na Itália e na Espanha. Em Madrid eu e minha irmã tomamos, no quarto do hotel, um enorme pileque de um vinho branco delicioso, muito doce, chamado Diamante, do que nunca nos esquecemos. Uma das boas coisas dessas viagens que a gente faz com a família é nos recordarmos delas nas reuniões domésticas.

Gostava de prelibar as viagens. Antes de seguir para a Europa, por exemplo, ia à casa dos meus amigos Gilka e José Carlos Barbosa Moreira, donos de uma agência turística imaginária – a Moreiratur – que nos forneciam, em detalhes, indicações sobre os melhores roteiros, hotéis, restaurantes, passeios, o que nós quiséssemos. Como o José Carlos era sempre convidado para congressos internacionais de direito de processo, ele e a Gilka viajavam para o exterior quase todo o ano, e conheciam, por isso, os recantos dos países mais remotos, respeitada, evidentemente, a sua louvável preferência por Paris e Veneza.

Depois da emigração da Adriana as nossas viagens para os EUA tornaram-se rotina, mais ainda quando começaram a nascer os três netos americanos, Isabela, Philip e Juliana. Em função da profissão do marido a família muda-se muito: já moraram em El Paso, no sul do Novo México, e residem, agora, perto de Tacoma, no estado de Washington. Por conta disso conheço, hoje, os Estados Unidos, de cima a baixo, de leste a oeste. Numa ocasião em que tanto Adriana, como o Flávio, moravam em Washington D.C , e cercanias, todos nós nos reunimos em torno deles como se celebrássemos uma festa diária.

Se eu vier a escrever um livro de memórias sobre o esboço que acabei de alinhavar pretendo intitulá-lo “O senhor Ferreira”. Será uma forma de me esconder, ao mesmo tempo em que me exibo. Utilizei, como leitor, ao longo da vida, uma técnica original, que eu chamo de “anti-leitura”, que me permitiu ( às vezes com pequenas perdas, infelizmente ) passar por cima rapidamente dos assuntos dos livros que não interessavam. Ao escrever estou empregando, agora, uma tática similar em que o importante não é, apenas, o que se escreve, mas o que se deixa de escrever. Posso designá-la de “anti-escrita”.

Para terminar, e não deixar ninguém com ciúme, eis o nome dos outros sete netos: Rafael, Fernanda, Pedro, Ana, Felipe, Daniela e João Pedro


2 comentárioss até agora

  1. Rose julho 18, 2011 6:48 am

    A d o r e i ! Espero que um dia esse livro de memórias venha a ser escrito.

    Beijos !

  2. letacio julho 18, 2011 8:49 am

    Obrigado. Mas, quanto a escrever o livro, já desisti. Bjs, Letácio

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