ATOLADOS NO PODERIO MILITAR

No livro intitulado “No centro da tempestade” – do qual o jornal NYT divulgou os trechos mais polêmicoas – o ex-diretor da CIA, George Tenet, ao tratar dos motivos da invasão do Iraque em março de 2003, deixa à mostra o risco de o seu país embarcar outras vezes em algum tipo de aventura bélica, mesmo depois de Bush deixar o poder.

George Tenet, como se sabe, tornou-se uma espécie de bode expiatório do fracasso da aventura iraquiana, depois que a Casa Branca divulgou a versão de uma reunião no Salão Oval na qual o ex-diretor da CIA, quando indagado sobre a existência dessas armas teria dito: “It’s a slam dunk”, o que significa “é uma enterrada” ( que, na gíria americana do basquete, corresponderia ao que diríamos, aqui, em linguagem futebolística: “é um gol certo.”)

Ao desmentir essa versão, Tebel afirma que Bush queria dar “um empurrãozinho” nos fatos o que, a seu ver, era uma boa. Diz, também, que não houve reunião séria alguma para cuidar do assunto, ou escolher outras vias para enfrentar as pendências com Saddam Hussein. Ou seja ele mostra – canalhamente, sem dúvida – que a equipe toda do governo estava envolvida num processo de fazer a guerra, e que a sua participação no episódio não foi decisiva, pois a guerra seria desencadeada de qualquer jeito. Isso deixa claro que se tratava da aplicação um objetivo nacional permanente dos EUA, sendo necessário indagar a razão pela qual isso ocorre.

O que sobra, hoje, como o maior elemento da potência nacional dos EUA é a sua força militar, campo no qual – diferentemente do que acontece na área política, econômica e psico-social. – eles não têm competidor. Conseqüentemente, o não-emprego dessa força pode significar o seu enfraquecimento: de nada valeria todo um poderio se ele não pudesse, ou não tivesse contra quem ser usado.

Esse raciocínio abstrai-se do fato de que a finalidade do acúmulo de força é colocar à disposição de seu titular os meios para exercer sanções destinadas a levar os outros a ter determinadas condutas. A força só tem sentido quando a serviço de uma determinada ordem jurídica: e é por isso que Clausewitz afirma que a guerra é a continuação da política de outra forma.

Fazer novas guerras, no futuro, para justificar, apenas, o poderio de que dispõem não passa, assim, de uma estupidez. O poder dos EUA não deve depender do binômio aumento do poderio militar/ aumento do emprego desse poderio, que pode interessar apenas, e a curto prazo, a setores ligados ao complexo industrial militar. O caminho a seguir, portanto, é o do aprimoramento do Direito Internacional, campo em que os americanos, por sinal, também têm uma boa experiência, que não devem desperdiçar.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.