O discurso ideológico do Secretário de Segurança Interna dos EUA

O Secretário de Segurança Interna dos EUA, Michael Chertoff, escreveu um texto para o Washington Post, intitulado “Não se engane: EUA estão em guerra”, com a pretensão declarada de se contrapor a um artigo anterior, do ex-assessor de segurança Zbigniew Brzezinski, publicado em 25 de março passado, no mesmo jornal, a propósito da inconveniência do emprego da expressão “guerra ao terror”.

Brzezinski criticara, no seu artigo, a expressão “guerra ao terror” que, segundo ele, “não tem sentido, porque não define um contexto geográfico, nem nossos inimigos, e o terrorismo não é um inimigo, mas uma tática de guerra.”. O Secretário de Segurança Interna americano no seu artigo, acaba confirmando, indiretamente, essas proposições, já que escreve, ele também, por sua vez, um texto sem sentido, um discurso de propaganda, de cunho essencialmente ideológico.

Vamos pinçar algumas frases do artigo ora sob exame: “Estamos em guerra contra um movimento e uma ideologia globais cujos membros buscam promover objetivos totalitários por meio do terrorismo; … “a visão ( desse movimento ) é comparável a dos ideólogos totalitários históricos, mas adaptada à rede global do século 21.”; “o objetivo ( desse movimento) “é um império totalitário teocrático, a ser alcançado por meio de guerra perpétua contra soldados e também civis”e “isso inclui o caso de armas de destruição em massa.&#8221.

Ora, ao dizer que se trata de um movimento global o articulista está confirmando o que diz Zbigniew Brzezinski sobre a ausência de um contexto geográfico para o terror, que justifique o uso da expressão “guerra contra”; ao mencionar um suposto “império totalitário teocrático ”Chertoff mais parece estar aludindo a algum game eletrônico, do que a qualquer realidade mundial; ao referir-se a “isso”, com uma conotação vaga e amplíssima e ao afirmar que o tal “isso”“inclui armas de destruição em massa&#8221, mostra não saber exatamente ao que está se referindo, o que é lamentável para uma pessoa da sua posição. Quanto a menção à uma &#8220 rede global do século 21 &#8221 cabe perguntar: do que se trata ? E a “guerra perpétua” será uma antítese à Paz Perpétua de KANT ?

No final de seu artigo Michael Chertoff admite que “a retórica de guerra “- que é a sua retórica e a dos atuais ocupantes da Casa Branca – pode causar “desconforto”e conclui: “Mas a História ensina que o falso conforto da complacência é uma indulgëncia perigosa diante de um inimigo determinado.”

Esse tipo de discurso causa, efetivamente, desconforto, tanto pela sua irracionalidade como por suas trágicas conseqüências práticas. É triste constatar que ele esteja sendo usado, nos dias que correm, por pessoas que ainda detém fortes instrumentos de poder nos EUA, como o atual Secretário de Segurança Interna daquele país.


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