CERTEZAS DE ANTIGAMENTE

Na década de 1940 tínhamos a certeza de que o nazi-fascismo precisava ser derrotado. Em nome disso, quase no fim da guerra, bombas incendiárias americanas, lançadas de aviões, destruíram várias cidades japonesas, inclusive Tóquio, que era repleta de construções de madeira, e onde morreram, numa só noite – como lembrou Robert MacNamara em impressionante entrevista filmada a que assisti na televisão recentemente- cerca de 100 mil pessoas: civis, homens, mulheres e crianças.

A certeza de que tinha sido necessário derrotar o nazismo, a qualquer custo, permitiu o surgimento , depois do fim da Segunda Grande Guerra – não obstante as atrocidades praticadas – da imagem simpática de uma nação heróica, determinada e, ainda assim, sorridente, em que era preciso confiar, gerando a ideologia “americanista” que durou cerca de 60 anos.

Hoje essa ideologia ficou desmoralizada, e já não há mais qualquer tipo de confiança nela. Mesmo a convicção atualmente generalizada de que o terrorismo é um mal não vem acompanhada da receita de qual a melhor maneira de combatê-lo. A fracassada invasão do Iraque, pelos EUA, e os graves problemas das forças da OTAN no Afeganistão, deixaram dúvidas insuperáveis sobre a eficácia de uma “guerra” ao terror.

A ausência atual de certezas, embora traga consigo alguma insegurança psicológica, pode ser uma oportunidade para fazer florescer a paz. A paz, com efeito, é uma fórmula de solução de problemas muito mais apta para conviver com as incertezas do que a guerra. E na busca pela paz perpétua no mundo um instrumento que está se revelando eficaz é a moeda, pensada como uma forma de organização das sociedades, no mesmo nível das leis.

Até pouco tempo atrás – mais exatamente, até a instituição do EURO – a moeda era um fenômeno exclusivamente nacional embora, no plano internacional, certos “padrões”, como a libra esterlina e depois o dólar, pudessem lastrear o comércio entre as nações. A circulação do EURO demonstrou, porém, que é possível uma moeda supranacional, regional – internacional, portanto – e que essa circulação simultânea das mesmas peças monetárias em vários países é um fator de estabilidade e de paz entre as nações, a despeito das incertezas e oscilações dos mercados.

Um primoroso estudo de Jeffrey Sachs mostra que a humanidade consegui chegar, pela primeira vez na história, num estágio em que o acúmulo de dinheiro e de tecnologia tornou possível acabar com a pobreza absoluta. E se a pobreza é uma das principais causas da violência podemos, com dinheiro e tecnologia almejar uma paz perpétua não só na Europa, onde ela já foi parcialmente implantada, mas entre as nações.

A moeda, sendo um valor, está apta a criar níveis escalonados de comportamentos e permite, pela simples transferência de mãos de peças de dinheiro, a solução dos conflitos. Isso não quer dizer que algumas corporações não possam, de fato, continuar a estimular soluções bélicas para impor os seus interesses. Mas quer dizer que a moeda, como norma jurídica primária, pode ser um instrumento eficaz em torno do qual venha a se estruturar uma sociedade pacífica no futuro.


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