OVOS DE SERPENTES

Há uma grande histeria no ar que lembra as campanhas moralistas da imprensa brasileira, em meados do século passado, contra Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek – este último um rematado ladrão, na opinião da classe média alta, até que se transformou num santo, depois de morto.

A prática de tratar a corrupção como se ela fosse um mal absoluto é uma tendência anti-democrática contra a qual os políticos devem reagir, sob pena de caminharmos para um enfraquecimento da república que não interessa a ninguém.

Não podemos nos esquecer de que a nossa ditadura militar foi instaurada – em 1964 – em nome da luta contra a subversão e a corrupção o que se revelou, afinal, uma grande hipocrisia que nos privou da liberdade política durante muitos anos.

Vivemos um momento perigoso no Brasil, dominado pela irracionalidade. Por um lado, tudo vai bem obrigado; a população está sendo mais bem paga e o nosso país emerge diante dos olhos do resto do mundo; estamos mais ricos e distribuindo melhor a renda; o salário mínimo cresceu, assim como o emprego e as oportunidades. Ainda assim, as classes média e média alta fazem discursos acalorados contra o poderes instituídos, privadamente ou através de seus porta vozes da imprensa, como se estivéssemos “na beira do abismo”, o que não é verdade.

Esse clima de falta de racionalidade não pode perdurar, na medida em que ele é preconceituoso, exagerado, e não leva a lugar algum. Não é saudável que colunistas e analistas políticos – muitos deles, de resto, extremamente medíocres e dogmáticos – fiquem pedido, diariamente, a cabeça de um e de outro e que perdure o espetáculo contínuo de caça às bruxas, porque isso, no final das contas, tem cara de macartismo.

Aos homens públicos cabe ouvir a opinião pública: mas quando esta se encontra inebriada por escândalos e sensacionalismo é função deles apelar para a razão.

Os políticos não devem, portanto, acovardar-se. Se o país vivem um bom momento – como vive – isso é resultado de um esforço de várias décadas que não pode ser desperdiçado.

Vamos combater a onda de preconceitos que anda por aí. Não permitamos que um clima de república de Weimar tome conta de nós, porque as conseqüências serão as piores possíveis.


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