RETÓRICA STALINISTA

Há dias o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, declarou ao Estadão, a propósito da ocupação, pela polícia, do Complexo do Alemão, que “não se faz bolo sem quebrar os ovos.” Ontem ele se referiu à revogação de um “pacto silencioso de não-agressão” entre a polícia e os traficantes, que ele, ao mandar matar quase duas dezenas de bandidos, teria quebrado.

A expressão não se faz bolo ( “rectius”, omelete ) sem quebrar ovos parece ter sido forjada por Nadeja Mándelstan – mulher do poeta Ossip Mándestan, assassinado a mando de Stálin – não sendo, portanto, uma criação original do ditador soviético. Mas o pacto de não agressão, assinado entre a Alemanha e a URSS em 23 de agosto de 1939 é, sem dúvida alguma, um fato político ligado à história sinistra de Joseph Stálin.

O nosso Secretário, portanto, está usando uma retórica stalinista, o que não é bom sinal.

Como não é um sinal bom, por outro lado, o fato de a ocupação do Alemão ter sido avalizada pelo Governador como retaliação pelo assassinado de dois policiais militares por meliantes locais, há cerca de três meses atrás – revide que mais parece uma cena cinematográfica típica do conflito árabe-israelense na Palestina do que um filme passado no Rio.

Há, talvez, quem se sinta seguro ao ver que o Estado está matando bandidos que poderiam causar problemas à população e aos turistas no curso do Pan-Americano. Outros acusam o governo local de estar criminalizando a pobreza, e abrindo as comportas da violência oficial no Estado para níveis até agora inimagináveis.

De qualquer modo o emprego dessas retóricas e práticas bélicas contra um “inimigo interno” é uma lástima. Eu não esperava isto deste Governo estadual.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.