A URV, uma unidade monetária “Mandrake”

Circulou, recentemente, pela Internet a exposição numismática, em power point, das cédulas brasileiras emitidas na vigência das diversas unidades monetárias posteriores a 1986: Cruzado, Cruzado novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real e Real. Lembra o autor do trabalho, na oportunidade, as diversas normas de conversão empregadas nessas reformas que se baseiam, quase todas, numa relação de 1.000 = 1, exceto no caso da Reforma Monetária Cruzeiro, que foi na base de 1=1, e da passagem do Cruzeiro Real para o Real que teria sido de 2.750 para 1.

Normas de conversão são regras essenciais em qualquer Reforma pois é através delas que podemos saber quantas unidades monetárias novas serão necessárias para liquidar as obrigações pecuniárias expressas na moeda anterior.

Na passagem do Cruzeiro Real para o Real, porém, não foi editada uma norma de conversão “clássica”, e sim um artifício ( chamado URV – Unidade Real de Valor ) que tomou como referência não o Cruzeiro Real, que era a unidade monetária anterior, mas um (1) “Indexador” ( isto é, uma obrigação monetária expressa em Cruzeiro Real) que deveria corresponder, num dado momento, ao valor de um (1) dólar ) manual ) e que, para esse fim, foi sendo reajustado diariamente até que parou, de modo abrupto, quando a sua cotação de mercado chegou aos pretendidos 2.750 Cruzeiros Reais para um (1 ) Real ( e esta foi a relação “teoricamente” afinal estabelecida entre as duas unidades monetárias )

Como se vê, portanto, ao invés de converter, diretamente, 2.750 ( dois mil setecentos e cinqüenta ) cruzeiros reais para um (1) Real, seguindo o mesmo critério das reformas anteriores, o plano Real converteu, por via oblíqua, um “Indexador” numa moeda.

Como o indexador não era moeda: foi convertida, irregularmente, em moeda o que não era moeda. Foi uma espécie de mágica que deu certo, na prática, porque a hiperinflação acabou. Mas ficou um resíduo que até hoje cria problemas.

Por outro lado, não satisfeito em ” transformar” o Indexador até então vigente em unidade monetária o Plano Real, aproveitando-se da experiência da Taxa Referencial ( TR ) transmudou, ao mesmo tempo, o Indexador em juros flutuantes dando espaço para a utilização generalizada da Taxa SELIC.

O plano Real, como todos lembram, é de 1994 mas as anomalias monetárias que ele criou, decorrentes dessas soluções artificiais, não foram corrigidas até hoje. É possível que as autoridades monetárias estejam, até agora, esperando que ele se resolva “naturalmente”. Como, porém, não há nada nesta área que possa ser considerado natural, é preciso que o Banco Central intervenha – não apenas para reduzir a taxa de juros, ou para comprar dólares com a intenção de elevar a sua cotação – mas para disciplinar e regularizar os efeitos da URV.

A não intervenção das autoridades monetárias para sanar as anomalias acima apontadas é uma das explicações possíveis, a meu ver, para o fato de termos, atualmente, juros tão elevados (embora caindo progressivamente ) e dólar tão baixo.


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