“MUCH ADO FOR NOTHING”

O gesto do tipo “Fradinho” de Marco Aurélio Garcia – mais uma intenção do que um ato ilícito, porque ele agia em estrita privacidade, constitucionalmente garantida – está sendo interpretado como uma manifestação de protesto contra a campanha que a mídia brasileira está fazendo contra o governo.

Que essa campanha agita as classes médias e média alta não tenho dúvidas, pelas conversas que ouço nos ambientes que usualmente freqüento. Disso deve resultar, também, maior audiência das rádios e da televisão e maior e tiragem dos jornais e revistas.

Impressiona-me, porém, a aparente falta de objetividade das críticas que estão sendo feitas, o que torna incertos os seus fins. O que pretende a mídia ao tentar tão insistentemente desmoralizar o governo ?

Ultrapassada a resposta ingênua de que o motivo das críticas é de fundo ético, de cunho apenas informativo e não político, creio que há, pelo menos, duas explicações para essas tentativas de criar nuvens catastróficas num céu de objetiva tranqüilidade: a primeira, saudosista; a segunda, preventiva.

Certos políticos e jornalistas têm saudades do grande agitador Carlos Lacerda, que fez muito sucesso entre nós na década de 1950. Esse foi o caso, por exemplo, do deputado Roberto Jefferson e, agora, do comentarista Merval Pereira, cuja agressividade da coluna diária que escreve está aumentando a passos rápidos. Quanto à atitude preventiva ela expressa o medo de que o Brasil, depois do presidente Lula, possa tender para o chavismo com o seu declarado socialismo.

Há, como se sabe, três grandes correntes políticas no Ocidente moderno: o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo. Mais recentemente o conservadorismo, sob a liderança dos republicanos americanos George Bush e Dick Cheney, transmudou-se num neo-conservadorismo antipático e beligerante; o liberalismo virou neo liberalismo, e passou a fazer vista grossa diante da violência e do terror estatais, de modo que só sobrou, mais ou menos intacto, o socialismo.

É verdade que o socialismo, numa época, quando ( especialmente na antiga URSS ) se transformou em socialismo “real” acabou, como se diz, quebrando a cara. Agora, contudo, voltou a ser democrático, sabendo aproveitar-se da força de eleições livres em países emergentes, como o Brasil. A atitude preventiva de crítica ao governo pela mídia pode ser, portanto, reflexo do pavor de que o próximo presidente da República do Brasil, eleito pelo voto democrático, venha a ser mais socialista do que o moderado e conciliador chefe de governo atual.

É provável que alguns jornalistas mais conhecidos candidatem-se em massa para a próxima legislatura, visando formar uma espécie de bancada anti socialista.

Poderá a atual campanha da mídia assumir,porém, dentro em pouco, fisionomia escancaradamente partidária e encontrar um político que a lidere ? Uma espécie de novo Mc Carthy caboclo ?

Eu gostaria que não; mas temos que esperar para ver.

Por ora as gritas da mídia – censuradas pelo gesto originalmente intimista de Marco Aurélio Garcia mas que, para o bem ou para o mal, logo se tornou público – não têm passado de muita agitação para nada.


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