PODER AQUISITIVO E POBREZA ABSOLUTA

A noção de poder aquisitivo popularizou-se a partir do século XVIII com a publicação do livro de ADAM SMITH, a Riqueza das Nações. Até então prevalecia o conceito de que as peças monetárias de ouro e de prata continham valor em si, o que SMITH negou quando afirmou : “It would be too ridiculous to go seriously to prove that wealth does not consist in money or in gold and silver, but in what money purchases, and is valuable only for purchasing ”

A associação do conceito de poder aquisitivo com a noção de valor de troca produziu uma revolução na cultura ocidental, ao abranger os preços, nacionais e internacionais, de todas as mercadorias que pudessem ser compradas, e, referir-se, ao mesmo tempo, às peças monetárias de papel e às obrigações monetárias.

A quantidade de metal, com que se fundiam as peças monetárias, deixou, com o tempo, de funcionar como um limite às emissões, o que gerou, agora, no início do século XXI, o excesso de liquidez internacional com o qual nos defrontamos.

Vivemos hoje, portanto, um outro momento de inflexão na história em que a noção de poder aquisitivo está sendo superada por uma outra ainda não definida. É que há mais dinheiro no mundo globalizado atual do que bens e serviços para comprar.

Essas considerações ocorrem-me a propósito da apresentação de ontem, na ONU, do primeiro ministro britânico, Gordon Brown, que, tentando contrabalançar o discurso belicoso dos norte-americanos, anunciou, enfaticamente, já ter conseguido o apoio de governos e empresas para a erradicação da pobreza extrema e da fome até 2015: um dos objetivos, como se sabe, do programa das Metas do Milênio aprovado em 2000.

Eliminar a pobreza absoluta não significa transferir poder aquisitivo dos ricos para os pobres: é usar o dinheiro como uma forma nova de organização de grupos humanos.

Não se trata de dar dinheiro para que as pessoas apenas comprem, mas para que as pessoas, além de comprar, organizem-se de modo menos violento.

É por isso que o programa de terminar com a pobreza até 2015 é um projeto, também, contra a violência. Ao comprometer-se com essa política o primeiro ministro Brown se distancia, efetivamente, de Tony Blair que, por oportunismo e fragilidade pessoal, submeteu-se, em 2003, ao rolo compressor da Casa Branca e concordou em que a propaganda usasse o seu sorriso, e carisma, para tentar amenizar, junto à opinião pública, a estupidez da guerra do Iraque.


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