“DOENÇA BRASILEIRA”

Embora não me agrade esse tipo de metáfora, jusnaturalista, que trata da Economia como se fosse um corpo animal, a expressão “doença” empregada para caracterizar o que ocorre hoje com o Real pode ajudar a encaminhar melhor a discussão que deve ser travada sobre a nossa moeda nacional, treze anos depois de ela ter sido implantada.

Segundo informa o correspondente em Londres do Estadão, João Caminoto, o jornal Financial Times, escrevendo sobre o tema, esclarece que “ a alta das exportações não é o único fator da valorização do Real.” “O volume de dinheiro que está sendo direcionado para ações e bônus brasileiros” – conclui o FT – “tem tido um impacto ainda maior no Real do que o comércio, fato que deve servir como um alerta sobre a estabilidade futura.”

O principal problema do Real consiste na ausência de uma norma de conversão das obrigações monetárias anteriores – expressas em Cruzeiro real- e na sobrevivência da indexação em alguns setores ( especialmente no setor financeiro ) que continuam a desfrutar de uma “unidade monetária” própria, diversa da moeda de outros setores, o que dificulta a ação da política monetária do Banco Central.

Não é fácil mexer nesse quadro, que criou a sua própria “clientela”, particularmente nos bancos que, antes do PROER, estiveram à beira da bancarrota, mas são hoje as empresas mais lucrativas do Brasil e estão dentre as que mais rendem no mundo.

A estabilidade, porém, está ameaçada, como diz o Financial Times e nada pior para o governo, a esta altura, do que a desorganização do sistema financeiro brasileiro. O presidente Lula, apoiado pelo ministro Palocci, pelo presidente do Banco Central Henrique Meirelles – e por outras pessoas igualmente responsáveis – conseguiu preservar o Real, defendendo-o de seus agressores externos e internos e, por isso, foi reeleito, e mantem credenciais muito fortes para influenciar na próxima eleição de seu sucessor.

O plano de aceleração do crescimento não será suficiente para enfrentar o perigo de enfraquecimento da estabilidade financeira, que reduzirá o “valor real” dos salários e trará de volta, provavelmente, a indexação, com a conseqüente desordem capaz de tumultuar o processo eleitoral que dará à oposição, atualmente sem discurso, uma nova bandeira.

A decisão de promover alguns arremates no Plano Real é – por mais paradoxal que isso pareça – peça essencial para a esquerda ( que tanto o combateu em 1994 ) manter-se futuramente no poder no Brasil.


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