DUAS LÓGICAS

Depois de duas semanas de espetáculo público digno de um Circo Internacional – com aterrissagem “de surpresa” ( elas sempre são de surpresa ) de Bush no Iraque e exibição de uma coleção inacreditável de medalhas do general David Petraeus na exposição ao Congresso americano transmitida pelas televisões de todo o mundo – transpareceu a estratégia da Casa Branca para o final do governo republicano: retardar, até o fim, a solução do conflito, fingir que ganharam a guerra, e jogar os problemas da retirada das tropas nas costas da futura Administraço.

Segundo Kenneth M. Pollack, um especialista em Oriente Médio, da Brookings Institution, citado pelo jornalista Paul Richter, do Los Angeles Times ( em artigo traduzido para o Estadão de hoje ), “ Bush descobriu sua estratégia de saída”: “agora”, conclui o jornalista, “ os republicanos poderão alegar que a guerra está no fim e os soldados estão voltando para casa, ainda que menos de 20% devam voltar no ano que vem.”

Tudo isso, como se vê, são pura peça de propaganda, para convencer os crédulos: dentre os quais se encontra, aparentemente, o atual redator dos artigos de fundo sobre política internacional do jornal GLOBO ( e seus eventuais leitores ) que encerra o seu texto de hoje dizendo: “ … o pior para o futuro do país e do Oriente Médio parece ser uma retirada a qualquer custo das tropas americanas”… “ Os EUA não podem entregar o Iraque à própria sorte sem um plano que vise a um consenso mínimo entre as principais forças do país.”

Ou seja, de sério mesmo, nada.

A Casa Branca continua prestigiando a lógica da guerra – que é um antídoto à lógica do Direito. Os EUA não tinham sequer motivo para a ilegal invasão do Iraque, um país soberano; agora não querem sair de lá sob a alegação de que, já que entraram ( e criaram um caos no país, e uma tragédia humanitária ) se saírem derrotados vai ser pior – para os iraquianos….

É tudo uma triste farsa. As despesas estupendas com a guerra, o rastro de destruição, o sofrimento da população civil – que só tem, praticamente, as alternativas de exilar-se ou de deixar-se morrer – nada disso conta. O que importa, apenas, são as aparências, como se se tratasse de um filme de guerra, em que o mocinho não pode perder.O governo Bush demonstra, mais uma vez, seguir a mesma lógica do seu maior inimigo, Osama Bin Laden.

Vamos ter que esperar até que os democratas assumam o poder e tenham a coragem moral de re-enquadrar os EUA ( a maior potência mundial atual ) nas regras do Direito Internacional, das quais eles se afastaram tanto nos últimos anos, como se elas não devessem mais ser respeitadas.


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