SIRI DE BAIXO, SIRI DO MEIO, SIRI DE CIMA

O professor Alfredo Lamy costumava dizer, em suas aulas da Fundação Getúlio Vargas, que a repercussão social de certos fenômenos correspondia ao que acontecia com os siris vivos jogados numa panela que era posta a ferver. Enquanto os siris de baixo sofriam um calor que ia se tornando insuportável, os siris de cima percebiam o problema como se fosse apenas a emanação de um sopro morno, que não deixava de ser agradável.

Com a inflação acontece algo parecido do que ocorre com os siris.

Para os siris de cima um leve aumento da inflação não faz mal, porque os juros dos bancos, a ela indexados, podem continuar altos, e os lucros aumentam. Também as empresas de serviços públicos, que têm os preços administrados, regidos por vários índices, um pouco mais de inflação pode significar elevação das tarifas. Mesmo as indústrias e o comércio gostam de uma certa inflação, porque lhes parece que isso incrementa a atividade e o consumo e lhes possibilita subir os preços dos produtos, a despeito da concorrência. Os siris de baixo, porém, que são os assalariados, logo se incomodam com o calor da água da panela que está em processo de fervura.

Eis que além de problemas de câmbio o Brasil está voltando a ser ameaçado pela inflação.

Cabe ao governo Lula aproveitar os êxitos da sua política econômica, e tomar, o mais rapidamente possível, as medidas para levar o Plano Real, ainda inconcluso, às suas últimas conseqüências, fazendo os arranjos finais na ordem monetária para acabar com os resíduos “indexatórios” e permitir que os investimentos e as aplicações financeiras tenham um regime igual a de todos os países.

Isto é: sem correção monetária.


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