POESIAS ESPARSAS ( 4 )

VERSOS JUVENIS

Nós éramos os dois duas pombinhas mansas
A caminhar no mundo respirando amores
Trazíamos na alma a alma das crianças
Em tudo inocente com o perfume nas flores …

Vivíamos num sonho e, em torno, o mundo e as coisas
Pareciam sorrir ao ver-nos tão felizes:
– “Vê que a relava te afaga, se nela repousas”
– “ Vê que os cantos se calam a ouvir o que dizes”.

E íamos os dois pela existência a fora
Nosso amor era tudo, o resto nada mais.
Nós dois vivendo a vida toda em cada hora
Rindo ao dia que vinha e ao que ficará atrás …

Os pássaros cantavam e diziam em seus cantos
E da brisa ligeira os suaves sussurros
Mais encantos não há do que os doces encantos
Dos dois que se amam, inocentes, tão puros …

E se o vento beija o teu rosto tão lindo
( Porque o vento é travesso ) lá ia jovial
O seu louco sorriso, nas matas sorrindo
Contorcer-se nas folhas de algum bambuzal …

E, no final, nem nos dissemos adeus …
A pouco e pouco foi-nos separando
Roubando aos meus os pensamentos teus
A vida, coisas novas ensinando.

Ah ! Foi só ela, a nós sempre fazendo
Viver os dias cada dia mais
E esquecemos, todos dois crescendo
As coisas tolas que ficavam atrás.

Tudo era novo, e grande e majestoso
Novos quadros, diferentes paisagens
Do nosso mundo donos, transformados
Deste fomos em simples personagens.

E na ânsia infinda de viver pra frente
Fomos deixando o nosso mundo estreito
O qual era tão lindo, mas pobre de gente,
E muito bom demais, demais perfeito,
Por outro imenso mundo povoado
De novos encantos, de outras sensações.

Se belo como o outro não era tanto
De tantas sensações ele resplende
Que a nós nos pareceu ter mais encanto
Enfim, valia a pena, era tão grande…

Talvez não fosse puro como aquele
Ocultavam, porém, seus torpes crimes,
Sofismas tão sutis e tão galantes
E a mentira, roupagens tão sublimes!
Que esquecemos aquele nosso mundo
Escondido num canto qualquer da alma …

Mas, no final, já conquistado o mundo
De ti, por teu encanto e tua graça
De mim, talvez, pela suprema glória
Quando ele todo a nosso pés curvado
Venerar-te a beleza e o meu saber

Aí, talvez, nós procuremos tristes
Daquele imenso que nos honra e louva
Nosso pequeno mundo, mas em vão…

Aquele sonho de crianças puras
Aquela vida de anjos inocentes
Não poderão sonhar, velhos cansados,
Não poderão viver, desiludidos.

E veremos então que aquele amor
Foi uma flor que jaz já desbotada
Sem vida e sem beleza em nossas almas
E só deixou um pálido perfume
Que respirando enfim nós morreremos
Um pálido perfume, uma lembrança…

Fevereiro de 1954, para Lúcia


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