MANTEGA versus FMI

O título deste texto seria subversivo em meados do século passado, época em que JK fez o gesto político retumbante de “romper” com o FMI para implantar o desenvolvimentismo inflacionário, pelo qual o Brasil pagou tão caro nos anos subseqüentes. Hoje, porém, opor o FMI ao ministro da Fazenda Guido Mantega – e, o que é pior, tomar o partido do primeiro contra o segundo – soa como uma atitude conservadora, embora não o seja.

Em entrevista hoje publicada no jornal Estado de São Paulo o ministro disse o seguinte, sobre a evidente crise cambial que vivemos: “É claro que eu preferia que o real fosse desvalorizado. Mas a economia se adapta a um câmbio menos favorável e o faz com aumento de produtividade, com racionalização da produção e utilização de uma parte de insumos importados. A estrutura produtiva nacional tem de se adequar a um câmbio mais valorizado. E ela está se adequando.”

Traduzido isso em miúdos quer dizer, para o ministro, que é melhor deixar tudo como está, para ver como fica ; ou, em outras palavras, que o problema do câmbio acaba se resolvendo sozinho, o que, evidentemente, não é verdade.

Aqui é que entra o FMI que, conforme artigo da editoria econômica do mesmo Estadão, publicado do sábado, discorda da política brasileira de intervir no mercado para aumentar as suas reservas que já estão em níveis mais do que suficientes.

“ O estudo do FMI”, diz o jornal, “ surge num momento particularmente oportuno, quando existe um aparente braço-de-ferro entre ‘players’ do mercado cambial e o Banco Central, cujo resultado é valorizar, ainda mais, a moeda nacional”. ( .. omissis ..) Para evitar a apreciação excessiva da moeda nacional causada por essas entradas ( de capital volátil ) o Banco Central optou pela intervenção no mercado cambial que tem dois graves inconvenientes: é uma operação custosa, pelo fato de que o Banco Central paga um preço elevado para comprar divisas que aplica em títulos do Tesouro norte-americano que oferecem remuneração baixa: e, com essa intervenção, favorece nova apreciação do real, que aumenta o apetite dos especuladores das operações de arbitragem. O FMI, que desaconselha o controle da entrada de capitais, por ser inútil, desaprova, também, a intervenção do Banco Central no mercado, obrigado a emitir títulos a um custo elevado para esterilizar a emissão de moeda decorrente das suas compras. O estudo do FMI mostra que esse fluxo de capital estrangeiro tem o efeito de aumentar os gastos do governo, enquanto este deveria aproveitar essa situação para aumentar a sua poupança, reduzindo os gastos correntes e financiando os investimentos de infra-estrutura.”

Ou seja: o governo, do qual Mantega é titular da Fazenda, está gastando, segundo o FMI, uma fábula de dinheiro para favorecer os especuladores cambiais, e o ministro declara, publicamente, que não pretende fazer nada para estancar essa anomalia, embora seja evidente que as atuais intervenções do Banco Central no câmbio já não adiantam, tendo atingido o seu limite.

Nem basta, ao contrário do que diz o ministro, “aumentar a produtividade, racionalizar a produção e utilizar uma parte de insumos importados” – o que, de resto está fora do alcance do governo conseguir fazer. O que cabe ao governo é algo bem diferente: ele deve concluir a desindexação promovida pelo plano Real, o que exige coragem e competência, que o ministro Mantega, na sua entrevista de hoje, não está demonstrando ter.


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