O QUE SABEMOS DA CHINA ?

As celebrações do 17º Congresso Nacional do Partido Comunista, largamente noticiadas pela mídia brasileira, estão servindo para demonstrar o quanto ignoramos sobre o que se passa na China.

Essa dificuldade que temos em compreender o tipo de Estado chinês atual resulta da ótica ideológica empregada nas análises que lemos na imprensa brasileira, como é caso do editorial de hoje do Globo, sob o título “O avesso da China”, que é um verdadeiro samba de crioulo doido.

O editorial começa afirmando que “a China foi capaz de importar o sistema capitalista para dentro do socialismo de partido único” e termina dizendo não saber até quando o governo chinês “conseguirá manter sob controle uma população inevitavelmente conquistada pelos sonhos e ambições inerentes a qualquer sociedade capitalista.”

Quais serão esses sonhos e ambições inerentes à qualquer sociedade capitalista ? Serão bons, serão maus, serão certos, serão falsos. As agressões ao meio ambiente, cada vez maiores na China, são sonhos e ambições capitalistas ? A frase final do editorial destina-se, enfim, a esclarecer ou a obscurecer a realidade ?

Por outro lado, é claro que a China não importou o “sistema capitalista para dentro do socialismo do partido único”, mesmo porque o Estado chinês, o capitalismo, o socialismo e o partido único não podem ser empacotados no mesmo saco, porque não são noções que tenham o significado que lhes atribui, canhestramente, o editorial.

Embora não seja fácil entender o que se passa efetivamente na China, se tentarmos ser mais racionais e menos ideológicos – e partir de alguns pontos de consenso – podemos chegar a algumas conclusões, pelo menos preliminares.

Para começar, a China é um Estado autoritário: não sendo, portanto, democrática, o que é uma grande desvantagem na sua comparação com a Índia e o Brasil, por exemplo.

Do ponto de vista econômico a China é uma sociedade socialista, e não capitalista, embora esteja cada vez mais empregando a moeda como forma de organizar a conduta das pessoas.

Diferentemente da antiga União Soviética, que fazia uma propaganda intensa do comunismo, a China não parece preocupada em exportar a sua maneira de viver para outros países, malgrado a inegável influência que está conseguindo exercer, no vácuo deixado pelo surpreendente desprestígio dos EUA, que se acelerou gravemente com a ascensão ao poder dos neo conservadores americanos, liderados pela dupla Bush/Cheney.

As dificuldades em compreender as mudanças que estão ocorrendo no mundo são, portanto, o resultado – especialmente para nós, brasileiros, que vivemos nesta “área de influência” – da sensível perda de poder dos Estados Unidos, o que, à sua maneira, é refletido no editorial do Globo de hoje.


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