VERSOS SATÍRICOS ( 1956 )

I – A PEDRA DO CAMINHO

Ah, Drummond ! Aquela pedra
No seu caminho, Drummond,
Era eu, no seu caminho
Eu sou a pedra, Drummond !

Não estava ali sem motivo
Eu o tinha, e muito bom
Sou pedra, mas raciocino
Sou muito “viva” Drummond.

Tanto sou viva que, ontem,
Era só pedra; hoje estou
Quase imortal, e sou verso,
Meio maluco, mas sou.

Antes de ser pra você
Fui pedra pra muita gente
Mas era, pra cada um,
Uma pedra diferente.

Fui pedra de quebrar vidro
E de matar passarinho
Veja você o que fui antes
De ser pedra do caminho.

Fui pedra de virar lata
Fui pedra de atiradeira
Já quebrei muita cabeça,
Já fui cruel, traiçoeira.

Vivia desesperada
Abandonada, esquecida
Querendo mudar de sorte
Querendo mudar de vida.

Quando soube que existia
Morava perto de mim
Eu, então, pro seu caminho
Instantaneamente vim.

Lembrei-me da bruta sorte
De um corvo, com quem me dou
E é famoso por graça
Do Edgard Allan Poe

Pensei comigo: é poeta
Verá em mim qualquer coisa
Fiquei um pouco indecisa:
“ Vamos lá, ousa ou não ousa ?

Ousei enfim, dei-me bem
Pra glória fui arrastada
Você me tornou poema
Fez-me famosa e falada

E, sem mais, quero deixar-lhe
Minha afeição, meu carinho.
Respeitosamente sou
Sua “Pedra do Caminho”

II – E AGORA DRUMMOND ?

Eu sou José. Recebi
Os versos com que me honraste
E por eles percebi
Que achas que eu sou um traste.
( Mas acho que te enganaste )

Vejamos, portanto, e pois
E me dirás, ao depois
Quem tem razão, de nós dois.

A luz apagou ? Fui eu
Que pra ela disse: “ Vai-te”
E pressionei o botão
Do interruptor da Light.

Sem mulher ? É bem verdade
Há uns três meses que estou
Queres mais felicidade
Do que esta que me encontrou ?

Minha mulher era magra
Ranzinza, triste, medonha
E não desejo jamais
Que ela voltar me proponha.

Fumar ? Não fumo, pois creio
Que não faz bem pro pulmão
Cuspir ? Não posso, evidente:
É falta de educação.

E há até um decreto
Que eu li, não lembro onde
Que pune até o projeto
De cuspir … ah!, foi no bonde

No bonde, que se não veio
Não causou perturbação
O bonde vem sempre cheio
Tomei mesmo um lotação.

Discurso ? Não tenho mesmo,
Mas digo, se te aprouver
Que tive um que emprestei
Para um Ministro qualquer

E esse discurso, tão bom
Causo pânico, me lembro
E foi usado, Drummond,
Num dia onze, em novembro.

Minha gula e meu jejum
Se amenizam entre si.
Só não posso beber rum
Posso beber parati.

Ir a Minas ? Vou tão breve
Meu tempo me permitir
Que um vento bom lá me leve
Nada me impeça de ir.

Minas existe e perdura
Vi no mapa do escritório
As minas que não há mais
São minerais … e de tório.

Ora, ora, se seu tocasse
Uma valsa vienense
Não há ninguém que hoje toque
Uma valsinha e compense.

Os tempos já estão mudados
Outros tempos ficam atrás
Não toco valsa, prefiro,
Um concerto de cool jazz.

Sozinho no escuro ? Não
Equivocaste-te, amigo
Não viste, tal o negrume
Quem se encontrava comigo.

Havia alguém: uma moça
Das muitas mais que consigo
E cujo nome resguardo
Por ser discreto não digo.

Cavalo preto ? Não tenho
Não há um que não estaque
Aliás, me locomovo
Somente de Cadillac

Queres saber pra onde eu marcho ?
Eu te digo, com alegria
Marcho firme e bem disposto
Para a seção da autarquia
Onde sou chefe e onde ganho
Vinte e três vezes um conto
E que tempo só me tira
O de assinar o meu ponto.

Por isso, vês, te enganaste
O meu viver é bem bom
“E agora”? – me perguntaste
“E agora”? – digo, Drummond…


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