IDEOLOGIA REQUENTADA

Na precisa definição de Kelsen, em sua Teoria Pura do Direito, a ideologia consiste numa “representação não objetiva, influenciada por juízos de valor subjetivos, que encobre, obscurece ou desfoca o objeto do conhecimento” o que explica, em grande parte, a aparente falta de sintonia entre o que diz a mídia, o que propalam certos políticos e o que constituem os interesses brasileiros atuais e permanentes.

Sofremos, fortemente, no Brasil os reflexos da ideologia conservadora americana, que surgida na década de 1950, foi crescendo aos poucos, conseguiu lançar Barry Goldwater como candidato à presidência da república em 1964 , elegeu e reelegeu Ronald Reagan presidente no período de 1981 a 1989 e, por fim, entronizou George W. Bush, em 2001.

Como lembra Michael Tomasky, no artigo “Era republicana pode estar no fim”, publicado no Estadão de ontem , esse neo conservadorismo, quando despontou era uma “coisa nova” o que nos permite entender a relativa “novidade”, também no Brasil, de certos itens da agenda dos políticos de direita, como, por exemplo, a intransigente defesa da redução de tributos, que chega a ameaçar a aprovação da prorrogação da CPMF no Senado Federal, algo que não era comum entre nós até então.

Outro exemplo da repercussão interna da ideologia conservadora americana é a raiva que a imprensa nacional, e certos políticos, têm do presidente Hugo Chávez, por mais que a aproximação do Brasil com a Venezuela seja do interesse dos empresários de ambos os países. A má vontade com Chávez decorre da verdadeira incompatibilidade de gênios entre ele e Bush, o que leva muita gente a tentar demonizá-lo, tratando-o como a própria re-encarnação de Belzebu.

Isso não quer dizer que a opinião pública brasileira, da esquerda, do centro, ou da direita, simpatize com o presidente Bush: mas pode querer dizer que será ensaiado, em breve, um discurso político destinado a separar a caipirice e incompetência do atual presidente do talento dos candidatos republicanos às próximas eleições, tais como Mitt Romney e Rudy Giuliani, que irão se apresentar, respectivamente, como um executivo bem sucedido e um prefeito de Nova York excelente, mesmo em tempos difíceis.

Como essa ideologia respinga por aqui é provável que assistamos, ainda, muitos políticos, analistas e jornalistas defender as vantagens de uma candidatura republicana – e de um conservadorismo competente – para os interesses brasileiros, e, ao mesmo tempo, propalar a antipatia de Hilary Clinton ou a inexperiência do Senador Barack Obama, o que for escolhido pela Convenção Democrata .

Como a era republicana, porém, como espera Tomasky, parece que está se aproximando do fim, podemos alimentar a esperança de que as opiniões ideológicas a que estou me referindo, que mais confundem, do que esclarecem, apresentem modificações, depois das próximas eleições americanas, e o ambiente político mundial deixe de destilar tanto ódio e intolerância como se vê nos dias que correm.


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