COMPARAÇÃO SURREALISTA

Para os advogados brasileiros é muito emocionante ver seus colegas – de paletó e gravata, como todo bacharel que se preza – saindo às ruas em defesa da ordem jurídica do Paquistão, ameaçada pelo ditador Musharraf, fortemente apoiado pelo presidente Bush.

As fotos publicadas nos jornais lembram – só que com os sinais trocados – as dos membros da OAB paulista que, recentemente, depois da queda do avião da TAM, foram para a rua protestar contra o governo, no bojo de um movimento intitulado “Cansei”. O problema é que o pessoal do “Cansei”, se morasse no Paquistão, talvez estivesse numa marcha a favor do governo, e não contra, pois Masharraf é apoiado pelos EUA, qualidade que é vista, por certo, como um bom sinal, pelos conservadores paulistanos.

O apoio dos EUA, porém, está perigando. Por um lado porque a Casa Branca não parece satisfeita com as demonstrações explícitas de anti-democratismo do chefe de governo paquistanês, que devia posar, ao contrário, de democrático, para que a política americana na área não seja considerada uma farsa. Por outro lado pessoas esclarecidas – como Iftikhar Mohammed Chaudry e Asma Jahangir ( respectivamente presidente da Suprema Corte e o principal ativista de Direitos Humanos do Paquistão ) – são contrárias à manutenção do status quo naquele país.

Pelo que escreve, a propósito, o jornalista paquistanês Ahmed Rashid, em artigo publicado no Washingon Post e traduzido hoje pelo Estadão, há uma disseminação de sentimentos anti americanos no Paquistão “ alimentados por uma política que buscava amparar Mussharraf e não forçá-lo a procurar o consenso político e empossar um governo civil representativo que contasse com apoio público para atacar os extermistas.”

De qualquer modo, afastada a tentação de fazer comparações surrealistas, não se pode deixar de simpatizar com o movimento dos juristas paquistaneses contra a ditadura, coisa que já fizemos aqui, numa época não muito remota, com sucesso.


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