TENTANDO RESPONDER AO VERÍSSIMO

Num artigo publicado no Estadão do dia 22 de novembro, intitulado “Matem o cavalo”, sobre a campanha desencadeada para desconstruir a imagem de Guevara, morto há 40 anos – na qual alguns chegaram a dizer que o famoso guerrilheiro “não só cheirava mal como era um péssimo caráter” – o escritor Luis Fernando Veríssimo ( referindo-se aos capitalistas, supostos beneficiários dessa campanha ) indaga:“do que eles estão com medo?”

O tema do artigo, que parte da análise do filme de Elia Kazan, é muito interessante : depois de matarem Zapata os seus assassinos queriam, a todo o custo – mas não conseguiram – matar o seu cavalo, para destruir todos os símbolos que pudessem lembrar o revolucionário mexicano, o mesmo que estaria ocorrendo, agora, com a figura lendária de Ernesto Guevara.

De que eles têm medo ? A resposta parece-me fácil: eles estão com medo da democracia.

O difícil é identificar quem são “eles”, que não me parecem ser, propriamente, os capitalistas (basta ler os jornais de finanças como o Financial Times e o Economistas para constatar como eles hoje estão intelectualmente mais abertos ) , mas os autoritários em geral, e, especialmente, os seus “Agentes de informação” que estarão, em breve, perdendo os seus empregos no Oriente Médio e no Afeganistão, quando os conflitos na região se acalmarem.

Estão ocorrendo, na verdade, muitas transformações neste final de governo de George W.Bush: os talibãs querem conversar com os europeus e americanos sobre as possibilidades de paz no Afeganistão; a situação no Iraque está se estabilizando em decorrência, em parte, do apoio promovido pelos xiitas do Irã ( que, por sua vez, está empenhado em dar boas explicações à AIEA sobre o seu programa nuclear ); a Síria e os EUA estão começando a se entender em torno da cessação do conflito entre Israelenses e palestinos, etc

Quando a paz, afinal, voltar a reinar, naquelas regiões, os agentes que dependem das guerras atuais– como os mercenários da Blackwater, por exemplo – correm o risco de perder os seus empregos ou de, pelos menos, sofrerem cortes nas suas gratificações, sendo imperioso encontrar novas ocupações e o campo propício para isso é, de novo, a América Latina, tão descuidada, ultimamente, em todos os sentidos, pelo governo americano.

O inegável “neomacartismo” atual, a que se refere o escritor Veríssimo reflete, em última análise, o receio de que a democracia, na América Latina, que possibilitou a eleição de Lula, de Hugo Chávez, de Evo Morales, de Corrêa, de Cristina Kirchner, e de alguns outros, arranque a nossa região da pasmaceira em que repousou durante todos esses anos, e implique, efetivamente, a substituição dos quadros que se formaram nos antigos regimes que dependiam, muitos deles, das benesses que recebiam do governo e das empresas dos EUA.

O ponto fraco desses ideólogos, que pululam na mídia, é que a sua tática continua consistindo em tentar criar uma multidão de tolos, sem espírito crítico, o que é hoje muito mais difícil, pela liberdade dos novos meios de comunicação, cujo controle é praticamente impossível, salvo nos países que ainda têm governos autoritários.

O medo dos autoritários, ao quererem destruir, dentre outras coisas, a imagem de Guevara, como os traidores de Zapata queriam fazer com o seu cavalo, é a democracia !


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.