A PAIXÃO HUMANA PELO VALOR

É difícil admitir que o valor é uma norma jurídica pois o ser humano é apaixonado pela idéia de valor e não o é tanto pela idéia de norma. O valor, para nós, no dia a dia, significa muito mais do que a norma, parecendo-nos algo bom, que nos promete riqueza e liberdade, enquanto a norma nos constrange. Tendemos a considerar o valor como algo intrínseco às coisas de que podemos ter a propriedade, o que não ocorre com as normas.

O valor, por outro lado, é, muitas vezes, considerado como “absoluto” enquanto, das normas, sabemos, mesmo por intuição, que elas são relativas. “Sentimos” que as normas são criadas pelo Homem enquanto o valor parece encontrar-se na natureza, e talvez em Deus. Temos do valor uma percepção mais concreta do que temos da norma. E nunca nos passou pela cabeça que uma norma pudesse ter “poder aquisitivo”.

A noção de valor – mais moderna do que o conceito de norma – surgiu da necessidade de entender e controlar um fenômeno novo e diferente, que começou a aparecer com grande intensidade, no final da Idade Média, numa época em que os Homens passaram a comerciar quantidades maiores, mais distantes e mais caras de mercadorias. A peça monetária metálica – que “tinha” uma bondade ( bonitas ) intrínseca – deu lugar aos títulos de papel, como a letra de câmbio, que permitiam o transporte do crédito à longa distância, sem riscos de perda ou de assalto no meio do caminho, no âmbito do que ficou conhecido historicamente como Revolução Comercial.

Cabia à noção de valor explicar o por quê de um pedaço de papel ser tão valioso quanto uma coisa de metal. Foi quando um jurista, no século XVI,formulou, pela primeira vez, um conceito – que se tornou conhecido como “valor nominal” – que muito contribuiu para a formação dos modernos Estados centralizados e foi essencial para o surgimento, mais tarde, do capitalismo, ao permitir a emissão de peças monetárias de papel.

O valor, na verdade, disse esse jurista, era um “nome” e sua existência decorria do fato, nada transcendental, de a moeda ser emitida pelo soberano. O valor intrínseco, portanto, era o valor extrínseco, e o quantum atribuído pelo príncipe à moeda devia prevalecer sobre o preço de mercado do metal em que eram cunhadas as peças monetárias, salvo em certos casos.

Embora não constituísse uma reedição do antigo princípio da regalia, o nominalismo não era bem visto pelos economistas, que encontraram , no século XVIII, na noção de “poder aquisitivo”, uma forma de garantir que os créditos pudessem manter a sua estabilidade o que, segundo eles, o princípio do valor nominal não assegurava.

( Teoria Monetária IX )


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