A EQUIVOCADA NOÇÃO DE “VALOR REAL”

Para o comum das pessoas nada há de mais relativo do que o valor, que varia em função de diversos fatores. Mas, assim como os alquimistas queriam transmudar o chumbo em ouro, os defensores da noção de valor real imaginam, até hoje, ter descoberto o modo de transformar algo relativo em absoluto.

Se alguém soubesse o que é um valor real teria a chave da conversão de todas as dúvidas em certezas. Nenhum outro valor seria válido, senão aquele valor real: os preços não mais oscilariam, nem o câmbio, nem os juros, nem a inflação.

Ora, alguém dirá, o governo pode evitar a variação do câmbio e dos juros e, se congelar os preços, como o fez tantas vezes, pode conter a inflação. Significaria isso que o governo tem o domínio do valor real ? A resposta será unanimemente negativa: o governo, efetivamente, é quem menos entende de valor real, pois age através da lei e dos regulamentos, não podendo disciplinar senão o valor nominal.

Aliás, de acordo com esse raciocínio – de que o governo só pode atuar por meio de valores nominais – o valor real escaparia, sempre, do seu controle , exatamente por ser real. Haveria, ademais, uma contraposição insuperável entre valor nominal e valor real: o primeiro, manipulável pelo governo, o último absoluto e verdadeiro, regido pela sociedade e pelo mercado.

Persiste, contudo, a indagação: quem todavia, saberia dizer qual é o valor real ? Ninguém, evidentemente. Por sinal, se alguém soubesse, teria todas as chances de se tornar governo, e de resolver os problemas que afligem a sociedade e o mercado. Mas se ninguém sabe dizer qual é o valor real, como poderemos afirmar que há um valor real, e qual é esse valor real ?
Constata-se, então, que o valor real é aleatório, pior e mais relativo ainda do que o valor nominal, ou seja, que o valor real é o que cada um de nós acha que é o valor real.

Em defesa da noção poderia alguém argumentar que o valor real, embora não seja absolutamente real, é o que está mais próximo da realidade. Ou, então, que quem indicaria qual é o valor real, no interesse da sociedade, seria o mercado. O valor real seria, pois, em outras palavras, o valor justo.E assim como não é possível, através da alquimia, transformar o chumbo em ouro, o máximo de exatidão que o valor real pode almejar é ser considerado o valor justo.

Mas cabe ainda perguntar: quem saberia, porém, efetivamente dizer qual é esse valor justo, se um valor que para o credor pode parecer justo, afigura-se injusto para o devedor? No início da Idade Moderna ficou razoavelmente estabelecido que o valor justo era o valor legal ( mesmo que eventualmente injusto ).E que se o valor real era o valor justo, e se o valor justo era o valor legal, e se o valor legal era meramente nominal, não podia a sua estipulação ficar sujeita ao critério apenas do governo, ou do soberano.

Para permitir o desenvolvimento da sociedade humana o valor nominal teria que ficar contido, enfim, nos limites da Lei. E é a essa subordinação do valor à Lei que denominamos de princípio do valor nominal.

( Teoria Monetária X )


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