VIVA O “BOLÍVAR FORTE” !

Começou a circular ontem, na Venezuela, a nova moeda daquele país, denominada Bolivar Forte, cujo nascimento foi saudado de forma simplista, por um lado, pela oposição venezuelana – ao dizer que o corte de três zeros do antigo Bolívar tem como objetivo dar à população a impressão de que os preços estão mais baixos – e, por outro lado, pelo governo, cujo ministro Robrigo Cabeza declarou ao Estadão que a “idéia é melhorar o comércio para a entrada de nosso país no Mercosul”.

As reformas monetárias promovem, em geral, um corte de zeros ( como ocorreu , por exemplo, no caso brasileiro, na revogação do cruzeiro pelo cruzado, e deste, depois, pelo cruzado novo ) mas essa medida não tem apenas o efeito “psicológico” de dar ao público consumidor a sensação de que os preços baixaram.

E é claro, também, que uma reforma monetária não visa, tão, somente, melhorar o comércio internacional do país que a promove.

A nova moeda venezuelana deve ser saudada, isso sim, como uma tentativa séria de o Banco Central – que permanece autônomo e independente, pois a recente reforma constitucional que visava enfraquecê-lo não foi aprovada – fazer com que a Venezuela possa enfrentar as dificuldades financeiras daquele país, que vive, há anos, uma crise inflacionária.

Quando as normas monetárias têm a sua eficácia reduzida em decorrência da inflação, e a moeda nacional tem a sua validade afetada, o meio utilizado para fazer face a esse problema é, em qualquer lugar do mundo, editar uma nova moeda. Cumpre esperar, portanto, que a Venezuela, através da revogação da sua antiga unidade de conta, consiga alcançar a estabilidade monetária.

Sobre o MERCOSUL – em cujo âmbito esperamos ter, muito em breve, a Venezuela, com o apoio do congressos brasileiro e paraguaio – é de todo interesse que o Bolívar seja estável, assim como o Real, o Peso, e as demais moedas dos países que venham a fazer parte do sistema de moeda única regional. Uma das principais medidas monetárias que antecedem a criação de uma moeda comum – que, no nosso caso, espero que venha a ser o “Sur” – é o estabelecimento de uma meta baixa de inflação, de 2% a 4% – com base no princípio da estabilidade dos preços.

Se a inflação venezuelana baixar, melhor para toda a América do Sul.

Viva, pois, o Bolívar Forte !


3 comentárioss até agora

  1. Flavio Jansen janeiro 5, 2008 10:40 am

    Minha experiência brasileira indica que cortar zeros não acaba com a memória inflacionária e é apenas uma forma de facilitar as contas. Querer que a moeda seja estável não basta, é preciso ações (e em geral são de natureza ortodoxas) para que isto acontença. Pelo perfil do governo venezuelano e seu voluntarismo, acho muito difícil que isto aconteça. Será uma surpresa feliz a estabilidade monetária e política na Venezuela, mas apostaria que não ocorrerá nos próximos anos.

  2. NELSON PAES LEME janeiro 6, 2008 10:32 am

    Caro Letácio,

    Muito interessantes as suas colocações.

    Acho importante a reforma monetária venezuelana desde que venha acompanhada do restante da reforma econômica, como no bem sucedido projeto do nosso Plano Real aqui no Brasil. Também acho que não há Mercosul sem a Venezuela. Concordo.

    Só não concordo com seu ingresso neste momento em que é dirigida por esse César Maia bolivariano. Creio que o “pragmatismo responsável” do Itamaraty vá empurrando com a barriga esse igresso, tendo como escudo o Marco Aurélio Garcia que nada acrescenta nem compromente com sua função de assessor internacional do Lula. Agora mesmo o Itamaraty não deu a menor confiança para o factóide chavista com o Uribe e as FARC, no episódio da frustrada libertação dos reféns.

    É nítida a tentativa de Chávez de estabelecer uma hegemonia dentro da América Latina, criando uma nova “guerra fria” com os EUA, a partir de interpretação muito pessoal das idéias de Simon Bolivar. Para isso não se cansa de provocar, além do Bush, o Lula, seu obstáculo natural. É, no entanto, o avesso do nosso líder operário, gerado nas assembléias e no Estado Democrático de Direito.

    Trata-se de um gorilóide golpista, personalista, voluntarista, falso carismático, forjado no culto da própria personalidade, vaidoso patológico e deselegante para os padrões consagrados na diplomacia desde o alvorecer da ciência política. Personalidades como a dele acabam sempre em grandes matanças e monumentais desastres democráticos.

    Por enquanto transita na mesma freqüência do assistencialismo e da pregação igualitária. Em breve passará à ameaça armada e à truculência. É viver para conferir.

    O trator da História, porém, vai passar por cima dele sem que reste a mais mínima lembrança de suas idiotices e factóides dentro de alguns séculos. A ciência de Herodoto só eterniza os egos a partir de projetos coletivos que sejam palatáveis pelos que professam os valores mais caros da Civilização e não pela tosca operação do poder pelo poder, em causa própria e de suas ambições e megalomanias, desdenhando das aspirações prementes do concerto das nações. Especialmente em tempos de mundialização da cultura e globalização da economia, esta voltada hoje, eminentemente, para a preservação da espécie e a sobrevivência do Planeta, ambos ameaçados pela excrescência do capitalismo industrial.

    Grande abraço,
    Nelson

    ET – Acho que você quis dizer “a nova moeda venezuelana” no começo do quarto parágrafo do seu texto e não “a nova moeda boliviana” como saiu grafado.

  3. Letácio Jansen janeiro 6, 2008 4:17 pm

    Obrigado por ambos os comentários. Corrigi os equívocos. Letácio Jansen

Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.