VALOR: A PALAVRA E O CONCEITO

Que a palavra valor não existia no latim clássico e só entrou na nossa linguagem na Idade Média parece não haver dúvida.

Segundo nos informa ANTONIO HOUAISS a palavra francesa “valeur” ( grafada de início “valor” ) é do século XI. O italiano “valore” é, também, do século XI. O termo inglês “value” é, igualmente, do século XI, tomado de empréstimo ao francês antigo, substantivação do particípio passado feminino do verbo valoir, do séc. XI, que é o latino valère, ‘valer’. As palavras portuguesa e espanhola “valor” são do século XII. O alemão Wert traduz o português /espanhol valor.

A palavra “valor” vem do latim tardio “valor-õris”, cujo termo inicial é o século VI . No latim clássico, e no direito romano falava-se em preço (pretium, ii ) e, para quantificar os preços, usava-se o verbo valer ( valeo, ere ) que levava em conta uma estimação (estimatio, onis ).

Acredito que um conceito só se torna definido no momento em que consegue ser expresso através de uma determinada palavra. Isso não quer dizer, contudo – como eu talvez tenha deixado subentendido em algum dos textos que publiquei anteriormente – que, na Antiguidade, não se tivesse estabelecido, ainda, uma distinção entre a matéria de que eram compostas as peças monetárias e a moeda como “medida”. Diz, a propósito, TULLIO ASCARELLI, no seu livro” La Moneta, consideración di diritto privato”, (baseando-se, para fazer essa afirmação, nos ensinamentos de MOMMSEN, Röm. Münzessen, MARQUART, Monete, misure e commercio del danaro, in Bibl. St. Econ., III, 447, e ANTELO SEGRÈ, Circolazione moneterai e prezze etc., Roma, 1922, e Metrologia e circolazione monetária ) que “ o mundo romano no momento do florescimento da sua jurisprudência já havia conquistado a autonomia da moeda do metal com o qual era cunhada”.

No tocante ao conceito de valor não há dúvidas de que a primazia da sua formulação cabe aos juristas e aos economistas. NICOLE ORESME , considerado um economista, no seu Pequeno Tratado da Primeira Invenção das Moedas, de 1355, emprega, em mais de uma oportunidade, as palavra”valeur”, em francês, e “valor”, em latim. Do mesmo modo o jurista CHARLES DU MOULIN, no “Sommaire”, de 1547, que serviu de base para o desenvolvimento posterior da doutrina jurídica do “valor nominal” , utiliza, largamente, a palavra “valeur” ( assim como usa, frequentemente, a palavra latina “valor” no tratado conhecido como “De Usuris”).

A partir do século XVIII, quando a palavra “valor” já tinha se popularizado,uma grande dicotomia, que separou, ainda mais, os juristas dos economistas, passou a ser expressa pelos termos “valor nominal” e “valor de troca”, este último criado por ADAM SMITH, no livro Riqueza das Nações, a partir da noção de poder aquisitivo.

( Teoria Monetária XXII )


2 comentárioss até agora

  1. Marcia Makdisse julho 13, 2023 6:22 pm

    Prezado professor Letácio,

    Parabéns pelo artigo!

    Como estudiosa de ‘Valor em Saúde’ fiquei bem curiosa de conhecer sua visão sobre o tema. Estou lendo o livro do Prof. John Baird, The Idea of Value, publicado pela primeira em 1929, e pesquisando sobre os diferentes significados da palavra Valor encontrei o seu blog.

    Respeitosamente,

    Marcia Makdisse

  2. letacio julho 14, 2023 9:48 am

    Tive muito prazer em receber a sua mensagem e agradeço os seus comentários elogiosos. Embora a minha especialidade seja Direito Monetário, estou inteiramente à sua disposição, a qualquer momento, para interagirmos e discutirmos sobre o tema “valor em saúde”. Creio ser mais útil a sra. conduzir o debate. Letácio Jansen

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