O RISCO NÃO É, APENAS, DE INFLAÇÃO

O risco, também, é voltar a correção monetária, porque ambos os fenômenos – a inflação e a correção monetária – são fatores que se somam para a derrocada do “princípio da estabilidade dos preços”, essa norma jurídico econômica fundamental que permite o bom funcionamento dos sistemas monetários de todos os dos países modernos.

Aqui no Brasil, no início do governo militar, logo depois da deposição do presidente João Goulart, foi divulgada uma doutrina oficial segundo a qual a correção monetária nos permitiria “conviver” com a inflação. A História brasileira mostrou que essa doutrina era uma falácia, já que no final da década de 1980, com inflação e correção monetária crescentes, atingimos uma das maiores hiperinflações mundiais de todos os tempos, o que só conseguiu ser controlado depois do Plano Real.

A experiência nos mostrou , aos brasileiros, que tanto a inflação, como a indexação, são caminhos que se unem para provocar um aumento descontrolado dos preços, produzindo a redução da eficácia das normas monetárias, podendo chegar ao ponto em que chegamos, em que a própria validade da moeda nacional foi abalada, exigindo-nos a criação de várias unidades monetárias,do Cruzado ao Real.

Quem conduziu a política brasileira de estabilidade monetária, como todos se lembram, foi o ex-ministro Pedro Malan, que influenciou o ex-ministro Antônio Palocci, o qual manteve, a duras penas, a estratégia anterior, com o auxílio imprescindível de Henrique Meirelles. Ocorre que Malan deixou em aberto, ainda, alguns flancos, por onde a correção monetária foi voltando aos poucos, mantendo-se viva no caso da SELIC, que corrige os tributos, da indexação das dívidas judiciais,e, agora, do reajustamento das prestações dos contratos imobiliários, que retornou com toda força.

Se a inflação brasileira recrudescer, portanto, nós corremos o risco de ver voltar, também, a correção monetária, e reiniciar-se uma corrida de “salve-se quem puder” entre os diversos setores da economia brasileira com o risco de cairmos num desequilíbrio que poderá ser fatal.

Não creio que o atual ministro Guido Mantega, muito desgastado, consiga enfrentar essas ameaças. Cabe ao presidente Lula, portanto, levando em conta os interesses não apenas de seu partido político, mas da Nação como um todo – considerando, inclusive, a possibilidade de o governador José Serra vir a se tornar o próximo presidente da República – colocar no ministério da Fazenda um grande nome de consenso, com o compromisso de complementar as medidas de desindexação da economia promovidas pelo Plano Real, para que a inflação que nos ameaça se, por acaso se concretizar, não seja agravada pela indexação.

Como dizem os autores clássicos que escreveram sobre a moeda, quando não há indexação a inflação dá “coceira”, igualmente, em todo mundo e não encontra, com isso, terreno fértil para prosperar


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