CARTA ABERTA

Tenho 49 anos, sou enfermeira e durante 21 anos trabalhei com mulheres portadoras de câncer de mama. Inicialmente, na atividade assistencial, pude ter a experiência de compartilhar o sofrimento e a luta para sobreviver ao câncer dessas mulheres. Depois me dediquei a estudos sobre o tema tratamento quimioterápico e câncer de mama, desenvolvendo pesquisas qualitativas no mestrado e no doutorado.

Ultimamente dedicava-me a estudos sobre sobrevida e câncer de mama, na intenção de realizar o pós-doutorado, quando me vi diante do diagnóstico de um câncer de mama. No mínimo algo irônico! Mas, a vida é assim mesmo, despreza os sonhos e os desejos e nos chama a lutar por ela. E assim, lá fui eu: passei pela cirurgia conservadora, fiz 6 ciclos de quimioterapia, vou iniciar a hormonioterapia e a radioterapia. Porém, estou aqui para falar da quimioterapia.

Há anos, pago um plano de saúde caro que me dá direito ao tratamento quimioterápico utilizando medicamentos que estatisticamente têm garantido a cura da doença. Muitos desses medicamentos não são acessíveis no SUS e aí começa o problema pois, não se diz que a saúde é direito de todos? Mas como, se só aqueles que podem pagar um plano de saúde tem o direito de receber os medicamentos, que estatiscamente garantem um melhor percentual de cura? Mais ainda, como se só aqueles que têm dinheiro podem pagar para utilizar medicamentos novos que amenizam enormemente alguns efeitos colaterais do tratamento e que o tão caro plano de saúde não cobre, mesmo que comprovadamente garantam uma qualidade de vida melhor, tornando o tratamento mais suportável?

É verdade que ter dinheiro não garante ter saúde mas, ter dinheiro garante o acesso e os meios para tentar recuperá-la, com melhores chances de vencer a doença e passar pelo tratamento de forma mais amena.

Tudo isso me remete ao já batido jargão da exclusão social. Ele é batido mas, se aplica maravilhosamente bem aqui, nessa experiência vivida e que mostra a selvageria indecente a que nos expõe o sistema vigente. Sistema no qual quem tem dinheiro, embora tenha a mesma doença e a probabilidade estatística de cura igual a de outros – falo aqui de estatística e não de singularidade – sai na frente enfrentando o tratamento com melhor qualidade de vida e com mais garantias de se tornar um sobrevivente de longo prazo.

Nesse sentido, gostaria de enfatizar aqui o que em minha tese de doutorado foi dado como conceito pelas mulheres que entrevistei sobre o tratamento quimioterápico: “é algo amedrontador e doloroso tanto física quanto mental e moralmente. É ainda alienante ao provocar um isolamento, que causa insegurança, medo e incerteza, mas ao mesmo tempo inicia um processo de busca de apoio no outro; e finalmente, há por parte delas, a compreensão de que enfrentar o tratamento é um meio e não um fim e, assim, acabam por abrir caminhos para novos modos de viver.” Então, porque ter ou não dinheiro tem que interferir nesse processo já tão doloroso de lutar pela vida, dificultando ainda mais o transcorrer do seu tratamento, negando uma qualidade de vida mais digna e um desfecho mais promissor?

Diante disso e reafirmando o conceito acima, sei que não posso mudar o sistema. Mas, posso me expor e devo protestar pois, me incomoda demais perceber que enfrentei um diagnóstico que me botou no chão, que me fez perder a segurança e enfrentar o desconhecido, me obrigou a um tratamento penoso, que me fez repensar toda minha existência, e só recebi o tratamento mais adequado que o desenvolvimento científico pode oferecer porque disponho do dinheiro para pagá-lo.

Então, não posso me calar diante dos fatos e venho afirmar que o acesso aos meios para se preservar e recuperar a saúde e o acesso aos avanços da ciência são um bem da humanidade e, portanto, não podem estar limitados a quem tem dinheiro porque são um bem universal e como tal um direito de TODOS.

“Saúde com qualidade de vida e acesso aos avanços da ciência são direitos de todos”

Teresa Caldas Camargo


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