INGENUIDADE DO EDITORIALISTA

A cobertura que a mídia brasileira vem dando á crise financeira americana tem sido muito eficiente, contando com a publicação de artigos de colunistas, brasileiros ( dentre eles cumpre destacar CELSO MING ) e estrangeiros ( como ANATOLE KALESKY e PAUL KRUGMAN, por exemplo ) que analisam os fatos com serenidade e competência.

A tendência ideológica ( aliás inevitável ) dos jornais, contudo, leva os editorialistas a cometer, às vezes, certos exageros como o que viu, hoje, no ESTADÃO, com o texto “O Pacto de Bush”, que termina com o seguinte ( longo ) parágrafo:

“ Mas a economia americana, como disse o presidente Bush na sexta-feira, ‘é fundamentalmente forte’ e tem demonstrado uma capacidade notável de recuperação.[…] O sistema produtivo americano continua caracterizado por uma flexibilidade e por uma capacidade inovadora superiores, até agora, às de qualquer outra potência econômica de primeira classe. Os operadores e analistas o mercado de capitais parecem esquecer esses aspectos da economia real, com a visão limitada, cada vez mais, ao horizonte do curtíssimo prazo”.

Depois de ler esse trecho do editorial de hoje do Estado de São Paulo fica-se tentado a indagar: e daí ? Que os EUA são uma potência econômica, há mais de um século, “fundamentalmente forte” ninguém tem dúvida. O que são, porém, os “aspectos da economia real” a que alude o editorialista ?

Ao mencionar a economia real o editorialista do Estadão parece sugerir que ele, e não os outros ( que têm visão de “curto prazo” ) sabe o que é a realidade e, sendo assim, é o dono da verdade, porque quem conhece a realidade econômica leva uma vantagem sobre todos os demais ( que, supostamente, não conhecem a realidade ).

O curioso é que as críticas que são feitas à gestão financeira da economia americana não fazem menção às despesas astronômicas das guerras em que os EUA se meteram e ainda ameaçam se meter.

Numa linha aparentemente divergente do editorial de hoje o colunista CELSO MING, no seu artigo de ontem intitulado “Clima pesado”, embora não se refira diretamente às despesas militares dos EUA, afirma:

“ A verdadeira natureza da crise é, no fundo, a mesma que atacou os países emergentes nas décadas de 80 e 90: os rombos orçamentários produzidos pela administração George Bush a partir de 2001. Se é assim, fica incompreensível que os Estados Unidos justifiquem estímulos fiscais condenados quando a crise ocorria em outros países. Quando a encrenca estava nos países emergentes, tanto o governo americano como Fundo Monetário Internacional ( FMI ) bombardearam qualquer providência que implicasse aumento das despesas públicas. Se essa receita ortodoxa fosse aplicada agora, os Estados Unidos teriam de cortar suas despesas e antecipar o pagamento da dívida, o que ajudaria a equilibrar as finanças e atrair capitais externos.”

A crise financeira nos EUA é, antes de tudo, monetária. Afirmar isso não significa ter uma visão de curtíssimo prazo, mesmo porque há anos alguns analistas de mercado ( como GEORGE SOROS, por exemplo ) vêm dizendo que o capitalismo americano enveredou por terrenos perigosos, e que as conseqüências do seu descaminho podem ser terríveis para um povo que vive um dia a dia confortável mas penoso.

Não temos o direito de ser ingênuos para parecermos bons moços.

Os EUA estão mergulhados numa enorme complicação monetária e a culpa – já que todos gostam de procurar os culpados – é deles mesmos, e não de seus inimigos externos.


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