EQUÍVOCOS DO “METALISMO”

Travou-se, no Brasil, em meados do século XIX, uma ferrenha disputa entre “metalistas” e “papelistas” em que se discutia, em última análise, se o papel poderia ser o suporte de peças monetárias ou se apenas ao metal caberia essa função. Dentre os papelistas – que foram, afinal, os vencedores da contenda – alinhava-se Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, que, na sua Autobiografia, escrita em 1878, proclama as vantagens do uso do papel, ao qual “ se prende toda a vida econômica e financeira do Brasil”.

Até hoje, porém – como evidencia Veríssimo em sua crônica de hoje, intitulada “Tim-Tim” – remanesce uma certa saudade dos tempos do metalismo, como se a peça monetária de metal, fosse, intrinsicamente, o valor e o papel não consistisse em nada além do que uma vaga promessa ( baseada na fidúcia ) de que o seu portador pudesse exigir do Tesouro que lhe pagassem o equivalente em ouro ou prata.

Os equívocos desse metalismo anacrônico são graves, e não devem passar ser reparo. Não é exato, por exemplo, que o papel moeda “tecnicamente” não seja dinheiro, nem que o sejam, ao contrário, “as vastas somas virtuais que hoje cruzam os céus de computador para computador, em silêncio”. Essas vastas somas virtuais são créditos, e não dinheiro, todo ele emitido pelo Estado em caráter de monopólio, que continua, por sinal, como sempre, tocável “pelas mãos humanas”.

O sentido da crônica, contudo, é mostrar que a falta do “tim tim” gerou o abuso dos cartões corporativos, ou seja, que os atuais donos da “caixa” não estavam tão atentos como aqueles de antigamente que, ao ouvir o ruído da caixa registradora, perguntavam, sempre assustados, para o empregado do estabelecimento, se o dinheiro estava entrando ou saindo.

Nisso o cronista tem toda razão. Fiscalizar os cartões, aliás, é muito mais fácil, do que supervisionar a entrada ou saída das peças monetárias das antigas caixas registradoras, pois no caso desses cartões o dinheiro está sempre saindo, embora para se chegar a essa conclusão, convenhamos, não seja preciso criar tanto escândalo nem instaurar comissões parlamentares de inquérito.


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