CAMPANHA EQUIVOCADA

O jornal GLOBO de hoje, domingo, estampa em letras garrafais na primeira página uma manchete dizendo que “Marinha vai apoiar polícia do Rio na guerra contra o tráfico”, cujo objetivo político-ideológico consiste em reiterar campanha para convencer a opinião pública de que está em curso, em nosso Estado, uma “guerra ao tráfico”.

A notícia, em si, não seria relevante para figurar na primeira página, pois foi extraída de declaração incidental do novo comandante do Distrito Naval na entrevista de rotina que deu ao jornal ao ensejo da sua assunção à função. Nem traz nada de novo, mesmo porque o entendimento institucional sobre o uso, ou não, da chamada Força Nacional de Segurança caberia aos ministros (da Defesa e da Justiça ) e não a autoridades de menor escalão ( nada indicando, ao que parece, que o vice-almirante tenha querido criar agitação sobre o tema)

A manchete do GLOBO esconde, portanto, a intenção da editoria do jornal ( para tentar neutralizar a revolta da população contra a trágica morte de menina que jogava vídeo-game dentre de casa na Rocinha ) de divulgar a mensagem de que a ação policial que a vitimou se insere dentro o contexto maior de uma “guerra”, da qual não podemos fugir, pois somos todos combatentes.

Os analistas internacionais – a propósito da “guerra ao terror” do presidente Bush –cansaram-se de dar declarações contra o uso da expressão “guerra” nesses casos, a começar pele fato de que isso enaltece a figura, conforme o caso, do terrorista ou do traficante, tornando-o soldado ao invés de bandido ou assassino. A notícia do jornal contem, ademais, indevidas insinuações sobre eventuais divergências entre o Exército – que “resistiu a pedidos insistentes do governo do Estado para patrulhar a rua” – e a Marinha que dará “ apoio logístico” nas ocupações ( o que, de resto, já estava estabelecido há muito tempo ).

E o pior de tudo – se é que pode haver coisa pior do que o único grande jornal que circula no Estado se prestar a esse tipo de campanha de desinformação da opinião pública – é que, se a luta contra o tráfico, fosse, efetivamente, uma “guerra”, como quer o GLOBO, ela estaria perdida de antemão, pois não vão ser medidas truculentas e desastradas como as que estão em curso que vão acabar com a venda e o uso de drogas.


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