A RENÚNCIA DE FIDEL E OS NOVOS CAMINHOS DE CUBA

A renúncia do presidente Fidel Castro abre espaço para que seu irmão, Raul Castro, instaure, em Cuba, uma experiência política e econômica nova, chamada “socialismo de mercado”, que vai exigir dos analistas um certo esforço mental para entender.

As três correntes políticas do Ocidente, como se sabe, são : ( 1 ) o conservadorismo, ( 2 ) o liberalismo e ( 3 ) o socialismo, que podem ser democráticos ou autocráticos.

Conheciam-se, apenas, até recentemente – até que a China inaugurasse essa novidade que se chama “socialismo de mercado” – o conservadorismo de mercado e o liberalismo de mercado, dos quais todos nós temos uma idéia do que sejam.

O que é, porém, o socialismo de mercado ?

Pode ele vir a tornar-se democrático ?

Entendo como socialismo de mercado um misto de regime político ( socialista ) e econômico (de mercado ).

O fato desse socialismo ser de mercado não quer dizer que ele seja democrático ( a China, por exemplo, é autocrática ), mas não quer dizer que ele não possa se transformar numa democracia.

Num regime de mercado, amplia-se o emprego do dinheiro como fator de controle social, com uma ampla descentralização das sanções, o que acarreta uma redução da violência governamental, que pode facilitar a amenização do regime autoritário, até que se eleja um Parlamento e implante-se, em conseqüência, uma democracia.

Isso não quer dizer que, ao passar a ser escolhido democraticamente o governo deixe de ser socialista, pois não há uma incompatibilidade entre o socialismo e a democracia.

Note-se, a esse último respeito, que há muitos que hoje pensam que o socialismo e a democracia não podem se conjugar, como havia muitos que antes pensavam que o capitalismo – por ser uma “ditadura da burguesia” – não se harmonizava com a democracia, pelo menos aquela que interessava às classes populares.

Hoje se sabe que a democracia não pode ser classificada segundo supostos “conteúdos” que justifiquem sobrenomes como : democracia “popular”, democracia “elitista”, etc.

Em outras palavras, depois da implantação do socialismo de mercado podemos esperar, sim, que Cuba venha a se tornar um Estado democrático, mesmo que não vire capitalista, nem volte a sofrer – como na Cuba de Fulgêncio Batista – a arrasadora influência dos EUA, da qual Fidel Castro a livrou há cerca de meio século.


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