OS LIBERAIS E A GUERRA DO IRAQUE

Duas das principais competências dos Estados nacionais são ( 1) emitir dinheiro e ( 2 ) fazer a guerra.

A má vontade de certos liberais com a existência do Estado leva-os a ignorar, contudo, esses dois atributos da soberania. No caso da emissão do dinheiro, muitos consideram-no mero instrumento de criação dos créditos enquanto outros, mais extremados, vão ao cúmulo de propor a “privatização da moeda”, como F.H.Hayek, que escreveu um livrinho em meados da década de 1970 com esse título: “A desestatização do dinheiro – uma análise da teoria e prática das moedas simultâneas”.

A técnica liberal de ignorar a vigência do Estado ressalta, também, da leitura do livro do casal MILTON & ROSE FRIEDMAN – “ Liberdade de Escolher – o novo liberalismo econômico”, em que o funcionamento de uma sociedade extremamente complexa, como a norte-americana, é descrito, num estilo bem humorado, como sendo um processo cada vez mais natural, que flui segundo a livre tendência de alocação dos créditos, cujo único risco é sofrer a “tirania dos controles” que, se não existir, permite que o governo aja como personagem de um filme de fantasia.

Foram esses liberais, embalados na sua convicção, que, nos EUA ( e também no Brasil, como o reconhece, agora, o jornalista ALI KAMEL, em seu artigo no GLOBO de hoje ) ou apoiaram a guerra do Iraque ou ficaram calados diante dela.

Uma das piores conseqüências da teoria liberal atual, portanto, foi calar vozes tradicionalmente pacifistas inibidas diante do seguinte raciocínio: se o Estado não deve existir, a guerra que ele está promovendo ( breve e fácil de ganhar, como, no início prometia Bush ) logo deixará também de existir, e tudo se resolverá num jogo de débitos e créditos, segundo os sábios ditames dos mercados, não sendo necessário condená-la.

A guerra do Iraque, contudo, embora às custas do sacrifício de toda uma população, não foi breve nem está sendo fácil para os invasores, desacostumados a enfrentar uma estratégia “assimétrica” ( ou seja, do combatente suicida ), resultando, afinal, num estrondoso fracasso.

Ao mesmo tempo, o mercado americano demonstrou que, se não for vigiado de perto, perde o juízo, e pode levar países poderosos economicamente para perto da borda de uma situação calamitosa.

Isso prova que certas idéias podem gerar resultados desastrosos, e levar governos dos Estados nacionais a tomar decisões condenáveis, o que ocorre, às vezes, rapidamente, em períodos históricos extremamente curtos, como este de George W. Bush que, felizmente, está em vias de acabar.


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