SOCIEDADE CIVIL, DONA DO ESTADO

Os neo liberais tendem a tratar a sociedade civil, que se estrutura em torno do dinheiro, como um espaço em que as pessoas privadas competem saudavelmente, longe dos regulamentos baixados pelo Estado.

Tomando como exemplo os Estados Unidos vemos, contudo, que o desenvolvimento do capitalismo, ao contrário disso, gerou, por um lado, um desmesurado crescimento do Estado (que se tornou o “sistema internacional” mais poderoso da História de todos os tempos ) e, por outro, promoveu uma “estatização” da sociedade civil americana.

A influência da sociedade civil americana sobre o Estado se exerce de várias formas, particularmente através dos lobistas, que são os elos de ligação entre as empresas, o Congresso e a Casa Branca. E eis que os lobistas aparecem, agora, como os principais dirigentes da campanha do pré-candidato republicano John Mc Cain.

Depois de ter sido acusado, pelo NYT de ter tido um romance, em 2000, com Vicki Iserman, do lobbie do setor de telecomunicações, o senador Mc Cain foi denunciado, ontem, pelo Washington Post , como informa a repórter do GLOOBO Marília Martins, de cercar-se de lobistas de toda espécie, a saber:

a – o gerente da campanha, Rick Davis, é co-fundador de uma empresa de lobbies, cujos clientes são grandes empresas como a Verizon e a SBC Telecommunications;

b – um dos principais estrategistas de Mc Cain, Charles Black Jr, é presidente de um grande escritórios de lobby em Washington, BKSH e Associados, que representa empresas do porte da AT&T, da ALCOA, do Banco JP Morgan e da companhia aérea U.S Airways;

c – outros conselheiros do candidato republicano, como Steve Schmidt e Mark McKinnon, trabalham em firmas que fizeram lobbies para a Land O’Lakes, UST Public Affairs e Deli.

O senador Mc Cain, em resposta – sem negar que seus assessores essenciais são lobistas – afirma que eles, mesmo assim, são honrados, e “têm o direito constitucional de trabalharem para representar empresas americanas.”

O problema, porém, a meu ver, não é que eles queiram ou não, “corromper o sistema a seu favor”, como diz o senador. O fato transcende o comportamento individual desses lobistas, para se transformar numa questão institucional: são empresas que contratam lobistas para influenciar o Estado americano, na contramão do discurso liberal conservador, que pinta a sociedade civil como o paraíso da liberdade.

Ao cercar-se de lobistas John Mc Cain demonstra que, no seu eventual governo, nada vai mudar e mudança, como bem percebeu o pré candidato Barack Obama, é o que o povo americano mais quer atualmente.

As reportagens do NYT e do Washington Post sobre as ligações do senador John Mc Cain com os lobistas de Washington poderão ter um efeito arrasador, de inviabilizar a candidatura dele. A publicação desses textos antes da prévia do Texas ( que vai, ao que parece, escolher quem será o candidato democrata ) foi feita muito a propósito. Em 4 março será definido, aparentemente, o candidato democrata e, provavelmente, o futuro presidente dos EUA, muito antes de George Bush deixar o poder.

Se a candidatura Mc Cain implodir, o antigo pastor Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas -uma espécie de Garotinho, que nós, do Estado do Rio de Janeiro, conhecemos tão bem – dificilmente conseguirá substitui-lo. Pode-se estar caminhando, pois, para uma crise de poder nos EUA, diante da qual não parece haver alternativa, embora dela possa decorrer, quem sabe, uma antecipação da retirada das tropas americanas do Iraque , já que não pode ficar tudo para ser resolvido no começo do nova Administração democrata.

De qualquer modo, estamos presenciando ao espetáculo público de queda de um “sistema de poder” semelhante ao que já vimos quando caiu a antiga URSS. O modus faciendi pode ser diferente, mas ambos os eventos são muito parecidos.


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